Não pretendo fazer uma análise literária de Dostoiévski (Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski – 1821 – 1881). Seria uma pretensão que não me cabe. Mas lendo um pouco sobre a sua trajetória fiquei pensativo. Ele viveu muitas vidas em uma só. Conheceu o sucesso ainda jovem, experimentou o fracasso, foi preso, condenado à morte, teve a execução suspensa no último minuto. Depois vieram o exílio, as perdas pessoais, o vício em jogos e a construção de mais obras maravilhosas.

Enquanto pensava sobre essa história, tentava elaborar uma conexão com as reflexões sobre as masculinidades (cabeça de uma pessoa com TDAH). Será que o que mais falta hoje não são respostas, mas disposição para aceitar que ninguém é uma coisa só? Dostoiévski parece nos lembrar o tempo todo disso. Seus personagens fazem escolhas admiráveis e escolhas terríveis. Eles amam e machucam, são generosos num momento e egoístas no outro. E talvez seja exatamente por isso que sua obra siga tão atual. Vivemos uma época fascinada por respostas fáceis, especialmente quando o assunto é “o ser homem”.

Basta abrir as redes sociais para encontrar um roteiro passo a passo. A promessa é sedutora. “Siga este modelo (de masculinidade) e você finalmente será um homem de verdade”. Talvez esteja aí parte do apelo da machosfera. Não porque ofereça boas respostas, mas porque oferece respostas fáceis para perguntas difíceis. Quem eu sou? O que eu faço com meus medos, com as frustrações, com minhas fragilidades?

Ao longo dos anos, em rodas de conversa, grupos de discussão e outros espaços de diálogo com homens, uma percepção nunca deixou de me acompanhar. Ninguém cabe num rótulo só. Encontro homens que causaram sofrimento e também homens que carregam sofrimentos profundos. Nada disso elimina a responsabilidade pelos seus atos. Mas responsabilizar é muito diferente de transformar alguém numa caricatura. Somos capazes do melhor e do pior. E talvez seja por isso que toda tentativa de reduzir uma pessoa a um rótulo diga mais sobre quem rotula do que sobre quem está sendo rotulado.

No fim, foi isso que essa reflexão despertou em mim. Não uma resposta sobre Dostoiévski, mas uma pergunta sobre nós. Será que o maior risco do nosso tempo não é a falta de referências, mas o excesso de discursos que prometem simplificar aquilo que sempre foi e continuará sendo profundamente humano?


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