Há uma pergunta que aparece frequentemente quando falamos sobre violência contra as mulheres: “E se fosse a sua filha?”

Durante muito tempo, essa expressão me pareceu uma forma de provocar empatia e sensibilizar os homens. Afinal, quando a violência atinge alguém próximo, nossa percepção pode mudar.

Mas essa pergunta também revela um problema: por que uma mulher precisa ser filha, esposa, mãe ou irmã de alguém para que sua dignidade seja reconhecida?

Essa reflexão ganhou força quando entrei em contato com pesquisas sobre o chamado Efeito Filha, que investigam como a experiência de ter filhas pode influenciar atitudes, decisões e comportamentos de homens.

Alguns estudos identificaram mudanças em determinadas atitudes relacionadas à igualdade de gênero. Pesquisas realizadas na Dinamarca também examinaram efeitos da paternidade de meninas sobre decisões de contratação e remuneração.

São descobertas interessantes, mas que exigem cuidado na interpretação. Ter uma filha não transforma automaticamente um homem em alguém comprometido com a equidade de gênero.

Recordo também um levantamento da Save the Children, divulgado em 2016, que situava o Brasil na 102ª posição entre 144 países em indicadores relacionados às condições de vida das meninas. Entre os aspectos considerados estavam casamento infantil, gravidez na adolescência, mortalidade materna, educação e representação política.

Esses dados nos lembram que a desigualdade não é uma questão individual. Ela é estrutural e exige transformações nas relações, nas instituições e na maneira como educamos meninos e homens.

No trabalho que desenvolvemos com masculinidades e cultura do cuidado, uma questão se torna cada vez mais importante: não podemos depender exclusivamente dos vínculos familiares para sensibilizar os homens sobre os direitos das mulheres.

Uma mulher não precisa ser nossa filha para merecer respeito. Não precisa ser nossa esposa para ter sua autonomia reconhecida. Não precisa ser nossa mãe para ter direito ao cuidado.

A responsabilidade masculina diante das desigualdades e das violências precisa nascer do reconhecimento de que todas as mulheres são sujeitas de direitos.

A consciência precisa ir além da filha, da esposa e da mãe.


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