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Contei aqui no último artigo os bastidores de um dia de trabalho e os desafios que eu e a minha companheira Charlene enfrentamos para bancar a parentalidade que acreditamos. Escolhas – que se impõe ou podem ser feitas por quem tem esse privilégio. E nesse sentido, quero compartilhar agora o quanto tenho experenciado a parentalidade e o trabalho com uma espécie de “colinha” entre elas: a culpa que, embora seja uma praga, também tem muito amor envolvido.

A inspiração para contar essa história surgiu quando assisti um programa da TV Cultura que gosto muito, o Provoca, apresentado pelo jornalista Marcelo Tas, e que no último dia 7 de junho contou com uma convidada pra lá de especial: a psicanalista Vera Iaconelli, da qual eu sou fã e acompanho o trabalho há tempos. Inclusive, li recentemente um dos seus livros como coautora, a obra “Parentalidade” (tema que ela é uma referência), da coleção Parentalidade & Psicanálise.

Iaconelli também tem iniciativas valorosas, como a criação do Instituto Gerar de Psicanálise que, entre outros vários empreendimentos extraordinários, promove pesquisas e populariza o acesso ao acompanhamento psicanalítico (popularmente chamado de “terapia”, que aliás, minha esposa faz acompanhamento há alguns anos).

Vera citou o filósofo francês Michel Foucault para trazer uma forma curiosa com a qual o intelectual explicava a questão das escolhas que, conforme explica, significavam perdas inevitáveis. Afinal de contas, não é possível termos tudo, não é mesmo? Vera explicou que o pensador usava a imagem do ladrão, que ao nos assaltar diz: “a bolsa ou a vida?”. Iaconelli observa que se a pessoa escolher a bolsa ela perde os dois. Ou seja, é preciso deixar várias bolsas pelo caminho se quisermos seguir em frente.

Pois bem. Embora tenha relatado o quanto fiquei emocionado e feliz com a ligação afetuosa que temos em nossa família – e o quanto nós estamos sempre buscando melhorar – nem por isso os desafios e as frustrações deixam de ser constantes. Há pouco mais de uma semana notamos que o comportamento da Madí estava um pouco alterado, demonstrando irritação, impaciência e uma certa agressividade. Conversamos bastante, eu e a minha esposa, e entendemos que precisávamos investigar com a nossa pequena o que estava acontecendo, a fim de interpretar o porquê de tais comportamentos.

A advogada e escritora Ruth Manus (mais uma dica, pois sou fã!) fala do quanto esse sentimento (da culpa) persegue as mulheres: “É como se ela estivesse pendurada numa correntinha o redor do pescoço. Um pingente de culpa que a gente nunca tira”. A culpa também habita em nós homens, talvez com uma nuance muito peculiar, que é a dificuldade de reconhecê-la e até mesmo nomeá-la. E pior de tudo, a negação, que vem associada ao não reconhecimento da nossa imaturidade – reflexo de uma sociedade que, entre outros fatores, não permite que demonstremos os nossos sentimentos, que são muitas vezes associados à fraqueza e a fragilidade – características das quais nós fugimos tanto!

Como disse, nos últimos tempos tenho “escolhido a vida”, o que significa a expansão da minha consciência quanto ao compartilhamento dos cuidados com a nossa filha e o trabalho doméstico. Mas olha como não é tão simples assim, pois isso não significa que vejo o meu trabalho como educador / consultor de diversidade, equidade e Inclusão como a representação da “da bolsa”, segundo Foucault. Até porque, trabalho também pode representar afeto, cuidado, que para muitos, muitos homens não é apenas “uma escolha”, mas algo que se impõe.

Lembra quando disse que a Madi estava com um comportamento diferente? Pois é. Percebemos juntos que a Madi estava passando muito tempo no celular e no computador antes de ir para a escola. Ela entra às 13h30, e temos toda uma rotina no período da manhã que se adapta às minhas reuniões de trabalho, atendimento de clientes, afazeres da casa etc. Opa! Olha aí o problema! A atenção e o afeto dedicados à nossa filha neste caso estavam no “etc”. Pelo menos foi essa a minha leitura, considerando os meus privilégios.

Ou seja, como disse anteriormente, cuidar da casa, dos filhos, trabalhar (fora ou dentro de casa) são todas demonstrações de afeto e de cuidado. Mas para mim, rolou um sentimento pesado de culpa por imaginar que a nossa filha estava passando mais tempo nas telas do que comigo.

E o que vou contar aqui me deixa bem envergonhado, mas seguirei os conselhos da escritora Brené Brown em seu livro “A coragem de ser imperfeito”, e vou me vulnerabilizar compartilhando algo bem pessoal, com o intuito de contribuir com a jornada de outros pais. Madi, que tem menos de 7 anos de idade, usou o meu celular para fazer várias compras num determinado aplicativo. E o mais impressionante: mudou a minha senha de acesso e tudo!

Descobri e cancelei as compras a tempo, pois recebi um aviso no meu e-mail. Aliás, quase ao mesmo tempo em que a minha sogra, que mora no mesmo prédio que a gente, nos contou que a havia recebido um pedido de “segredo” da neta, pois tinha feito algo muito errado. Nesse dia fiquei muito, muito mal. Muito triste. Quase não dormi a noite e a culpa inundou o meu coração. O que estou fazendo de errado? Conversamos muito qual seria a melhor maneira de abordar o assunto com a Madi, e confesso que também senti muita raiva.

Processamos todos os nossos sentimentos e entendemos que castigá-la não seria inteligente da nossa parte, pois li certa vez que esse tipo de atitude só reforça o instinto das crianças de fazer as coisas da forma que eles querem. Além disso, já não acreditávamos antes que “castigar” combinasse com a maneira mais adequada de educar uma pessoa. Não funcionou muito bem na minha infância (a terapia me mostrou!). Acreditamos que o caminho é o diálogo e o acolhimento.

Isso não quer dizer que não devemos colocar limites e estabelecer regras. Combinamos de buscá-la juntos na escola. Paramos num café, tomamos um lanche bem gostoso e dialogamos sinceramente. Falamos sobre as consequências do que ela havia feito. E da gravidade também. Eu disse o quanto fiquei triste, e até mesmo decepcionado. Mas não deixei de apontar que não estávamos aproveitando muito bem o nosso tempo (e que isso era de minha absoluta responsabilidade). Daí, repensamos a rotina e estabelecemos novos combinados.

Nada de celular por enquanto (antes o combinado era de uma hora pela manhã e uma hora uma a noite). E para isso, eu me comprometi a ficar mais pertinho dela, o que significa deixar que use o computador, mas na sala, onde eu possa ver (e não no escritório, como antes), além de levá-la no parquinho do prédio pelo menos 30 minutos (ou brincando dentro de casa mesmo) antes da escola. Não é nada fácil, mas estamos conseguindo. Madi tem se mostrado mais tranquila e ainda mais carinhosa.

Quanto à culpa relacionada a falta de atenção dada a nossa filhota, temos trabalhado isso juntos, e juntos temos seguido em frente! Aliás, como de costume, sempre mostro os meus textos para a Charlene e peço que corrija, opine e aponte o que lhe incomoda. Faço cara feia, me incomodo e contra-argumento, mas não público sem essa troca.

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