Homens Que Cuidam https://homensquecuidam.com.br/ Masculinidades, paternidades e equidade de gênero para uma cultura do cuidado. Sat, 24 Oct 2026 15:25:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://homensquecuidam.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Sem-nome-512-x-512-px-150x150.png Homens Que Cuidam https://homensquecuidam.com.br/ 32 32 Onde estão os homens nas cidades do cuidado? https://homensquecuidam.com.br/onde-estao-os-homens-nas-cidades-do-cuidado/ https://homensquecuidam.com.br/onde-estao-os-homens-nas-cidades-do-cuidado/#respond Sat, 24 Oct 2026 12:00:33 +0000 https://homensquecuidam.com.br/?p=1453 Encontro Internacional Cidades do Cuidado propõe discutir a organização da vida urbana. Em Cabreúva, o Instituto Homens Que Cuidam desenvolve um Observatório para investigar como os homens participam dessas responsabilidades. […]

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Encontro Internacional Cidades do Cuidado propõe discutir a organização da vida urbana. Em Cabreúva, o Instituto Homens Que Cuidam desenvolve um Observatório para investigar como os homens participam dessas responsabilidades.

Quem leva uma criança à escola, acompanha uma pessoa idosa à consulta e reorganiza o dia quando alguém da família adoece? Quem consegue faltar ao trabalho para cuidar? E quanto tempo uma pessoa precisa atravessar a cidade para encontrar os serviços de que depende?

Essas perguntas revelam uma dimensão do cuidado que costuma permanecer pouco visível: sua relação com a organização das cidades. A localização de uma unidade de saúde, o horário de uma creche, a acessibilidade de uma calçada e as condições do transporte interferem diretamente na vida de quem cuida e de quem precisa de cuidado.

É nesse campo de reflexão que se insere o Encontro Internacional Cidades do Cuidado, previsto para os dias 25, 26 e 27 de novembro de 2026, em formato híbrido, com atividades presenciais na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e transmissão online. Com o tema “Urbanismo e Cidades do Cuidado: Éticas, Políticas e Práticas para Viver Juntos”, o evento propõe aproximar pesquisas, políticas públicas e experiências comunitárias. A participação é gratuita.

Para o Instituto Homens Que Cuidam, essa discussão encontra uma pergunta decisiva: onde estão os homens na sustentação cotidiana da vida?

O cuidado precisa ser compartilhado

Historicamente, as mulheres assumem grande parte das tarefas domésticas, da atenção às crianças e do acompanhamento de familiares. Além da execução dessas atividades, recai sobre elas o trabalho de lembrar, antecipar necessidades, marcar consultas e organizar a rotina.

Essa distribuição precisa ser considerada quando pensamos uma cidade que cuida. Ampliar serviços e melhorar o acesso são medidas fundamentais. Também é necessário transformar as relações que fazem do cuidado uma obrigação feminina e da participação masculina uma contribuição eventual.

Os homens precisam assumir responsabilidades concretas: conhecer a rotina dos filhos, acompanhar a saúde da família, dividir o trabalho doméstico e participar das decisões que sustentam o cotidiano. Ao mesmo tempo, serviços, empresas e políticas públicas precisam criar condições para que essa participação aconteça.

Uma cidade expressa suas prioridades também pelo tempo que permite às pessoas dedicar ao cuidado.

Cabreúva como território de investigação

É a partir dessa perspectiva que o Instituto Homens Que Cuidam desenvolve o Observatório Territorial da Cultura do Cuidado, com Cabreúva, no interior paulista, como território piloto.

A proposta está apresentada no trabalho “Onde estão os homens na cidade do cuidado? O Observatório Territorial da Cultura do Cuidado em Cabreúva/SP”, elaborado para a modalidade de comunicação oral, no eixo dedicado à governança, à democracia e à distribuição das responsabilidades de cuidado.

Em fase de implantação, o Observatório busca compreender como o cuidado se organiza no município, onde estão as desigualdades e quais barreiras dificultam o acesso a direitos. Para isso, articula dados públicos e administrativos, escutas com profissionais e moradores e a leitura dos equipamentos, horários e trajetos que fazem parte da vida cotidiana.

A investigação aproxima temas frequentemente tratados de maneira separada: saúde, paternidades, assistência social, educação, trabalho, mobilidade e prevenção das violências. Na experiência das famílias, essas necessidades se cruzam todos os dias.

Do pré-natal às rotas do cuidado

As interlocuções iniciais com a Atenção Básica e a Assistência Social de Cabreúva vêm ajudando a identificar questões para aprofundamento.

Uma delas envolve o Pré-Natal do Parceiro. Incentivar os homens a acompanhar a gestação exige observar também as condições de trabalho, o acolhimento nos serviços e o reconhecimento institucional desse tempo dedicado ao cuidado. Estar em uma consulta pode abrir caminhos para uma paternidade mais presente, mas a corresponsabilidade precisa continuar depois dela, na rotina familiar.

Outra frente é compreender as chamadas Rotas do Cuidado: os deslocamentos entre casa, escola, unidade de saúde, assistência social e outros serviços. Quem realiza esses percursos? Quanto tempo leva? Quais custos enfrenta? É possível conciliar os horários dos atendimentos com o trabalho remunerado?

O Observatório prevê reunir essas informações em mapas, análises e recomendações que possam apoiar a gestão pública, os serviços e a comunidade. As primeiras interlocuções são pontos de partida para a investigação; ainda não constituem um diagnóstico da população de Cabreúva.

Aprender com outras cidades, construir respostas locais

O projeto dialoga com experiências como as Manzanas del Cuidado, de Bogotá, que aproximam serviços e buscam enfrentar a sobrecarga das mulheres. Esse diálogo ajuda a formular perguntas sobre proximidade, acesso e distribuição de responsabilidades.

Cabreúva, porém, precisa construir respostas a partir de suas próprias condições: a distribuição dos bairros, os recursos disponíveis, as redes comunitárias e as experiências de quem utiliza os serviços.

Conhecer o território e escutar as pessoas são etapas essenciais para que o cuidado se traduza em decisões públicas consistentes.

Os homens também precisam construir essa cidade

A contribuição que o Instituto Homens Que Cuidam busca oferecer a esse debate parte de uma convicção: transformar a relação dos homens com o cuidado exige mudanças nas práticas pessoais e nas condições que organizam a vida coletiva.

Isso envolve responsabilização pelas violências, participação na vida familiar, compromisso com a equidade de gênero e presença nos espaços em que as políticas são construídas. Envolve, ainda, reconhecer que os homens precisam aprender a cuidar de si, procurar apoio e construir vínculos.

O Encontro Internacional Cidades do Cuidado abre espaço para aproximar essas questões do planejamento urbano e das políticas públicas. A experiência em construção em Cabreúva procura contribuir com esse diálogo, investigando como a corresponsabilidade pode ganhar forma no território.

Uma cidade que cuida precisa de homens que assumam, todos os dias, a responsabilidade de cuidar.

Mais informações sobre o encontro e inscrições: página oficial do evento.

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O “efeito filha” e o limite do “e se fosse sua filha?” https://homensquecuidam.com.br/o-efeito-filha-e-o-limite-do-e-se-fosse-sua-filha/ https://homensquecuidam.com.br/o-efeito-filha-e-o-limite-do-e-se-fosse-sua-filha/#respond Thu, 08 Oct 2026 17:35:23 +0000 https://homensquecuidam.com.br/?p=1412 Há uma pergunta que aparece frequentemente quando falamos sobre violência contra as mulheres: “E se fosse a sua filha?” Durante muito tempo, essa expressão me pareceu uma forma de provocar […]

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Há uma pergunta que aparece frequentemente quando falamos sobre violência contra as mulheres: “E se fosse a sua filha?”

Durante muito tempo, essa expressão me pareceu uma forma de provocar empatia e sensibilizar os homens. Afinal, quando a violência atinge alguém próximo, nossa percepção pode mudar.

Mas essa pergunta também revela um problema: por que uma mulher precisa ser filha, esposa, mãe ou irmã de alguém para que sua dignidade seja reconhecida?

Essa reflexão ganhou força quando entrei em contato com pesquisas sobre o chamado Efeito Filha, que investigam como a experiência de ter filhas pode influenciar atitudes, decisões e comportamentos de homens.

Alguns estudos identificaram mudanças em determinadas atitudes relacionadas à igualdade de gênero. Pesquisas realizadas na Dinamarca também examinaram efeitos da paternidade de meninas sobre decisões de contratação e remuneração.

São descobertas interessantes, mas que exigem cuidado na interpretação. Ter uma filha não transforma automaticamente um homem em alguém comprometido com a equidade de gênero.

Recordo também um levantamento da Save the Children, divulgado em 2016, que situava o Brasil na 102ª posição entre 144 países em indicadores relacionados às condições de vida das meninas. Entre os aspectos considerados estavam casamento infantil, gravidez na adolescência, mortalidade materna, educação e representação política.

Esses dados nos lembram que a desigualdade não é uma questão individual. Ela é estrutural e exige transformações nas relações, nas instituições e na maneira como educamos meninos e homens.

No trabalho que desenvolvemos com masculinidades e cultura do cuidado, uma questão se torna cada vez mais importante: não podemos depender exclusivamente dos vínculos familiares para sensibilizar os homens sobre os direitos das mulheres.

Uma mulher não precisa ser nossa filha para merecer respeito. Não precisa ser nossa esposa para ter sua autonomia reconhecida. Não precisa ser nossa mãe para ter direito ao cuidado.

A responsabilidade masculina diante das desigualdades e das violências precisa nascer do reconhecimento de que todas as mulheres são sujeitas de direitos.

A consciência precisa ir além da filha, da esposa e da mãe.

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Conversas que eu gostaria de ter. Com, Heleieth Saffioti. https://homensquecuidam.com.br/conversas-que-eu-gostaria-de-ter-com-heleieth-saffioti/ https://homensquecuidam.com.br/conversas-que-eu-gostaria-de-ter-com-heleieth-saffioti/#respond Fri, 25 Sep 2026 17:07:18 +0000 https://homensquecuidam.com.br/?p=1401 Uma das coisas de que mais gosto no meu trabalho é que ele me permite “conversar” com pessoas que nunca conheci. Ou, pelo menos, imaginar essas conversas. Sempre que mergulho […]

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Uma das coisas de que mais gosto no meu trabalho é que ele me permite “conversar” com pessoas que nunca conheci. Ou, pelo menos, imaginar essas conversas.

Sempre que mergulho na obra de uma autora ou autor para preparar uma palestra, um seminário ou uma formação, passo dias lendo, sublinhando livros, fazendo anotações, conectando ideias. Em algum momento, quase sem perceber, deixo de estar apenas estudando. Começo, de fato, a conversar com essas pessoas.

Fico imaginando como seria sentar para um café com elas. Quais perguntas eu faria? Que perguntas elas fariam para mim? É um exercício de imaginação, claro. Uma das maravilhas de estudar é, antes de tudo, aceitar que alguém já percorreu um caminho antes de nós (na grande maioria das vezes com muito mais genialidade e competência).

Essa semana terei a alegria de facilitar um primeiro seminário para um novo cliente sobre masculinidades, equidade de gênero e cultura do cuidado. Entre as autoras que mais têm me acompanhado nessa preparação está Heleieth Saffioti, uma das maiores sociólogas brasileiras e referência para compreender como a violência contra as mulheres é produzida socialmente.

Foi então que imaginei esse café. Acho que eu chegaria muito ansioso e envergonhado, mas determinado a fazer muitas perguntas. Afinal, em pleno Agosto Lilás, todos repetimos que precisamos combater a violência contra as mulheres. Mas poucas vezes paramos para fazer uma pergunta anterior. Como essa violência é produzida? Ela aparece do vazio? Ela nasce, de repente, no momento em que um homem agride uma mulher?

Saffioti, imagino, me olharia com a serenidade de quem passou décadas estudando exatamente isso. Talvez ela respondesse:

— Lincoln, meu filho, a violência nunca chega sozinha. Ela sempre encontra uma estrada pavimentada antes.

E, de repente, tudo faria sentido:

– A piada machista.

– O controle disfarçado de cuidado.

– O ciúme tratado como prova de amor.

– A interrupção constante da fala de uma mulher.

– A divisão desigual do trabalho doméstico.

– A ideia de que o homem “ajuda” em casa, em vez de reconhecer que a casa também é sua responsabilidade.

Nada disso é a violência em sua forma mais extrema. Mas tudo isso prepara o terreno para que ela aconteça. Então eu lhe faria outra pergunta.

— Mas por que alguns homens recorrem justamente à violência quando uma relação termina?

Ela provavelmente não falaria apenas sobre homens. Falaria sobre poder. E essa talvez seja uma das reflexões mais importantes que sua obra nos oferece. Quem ocupa uma posição de poder não precisa recorrer continuamente à violência. A violência costuma aparecer quando esse poder começa a ser contestado:

– Quando a mulher decide ir embora.

– Quando denuncia.

– Quando conquista autonomia financeira.

– Quando simplesmente diz “não”.

– Quando deixa de obedecer ao roteiro que um homem acha “natural”.

É nesse momento que alguns homens confundem perda de controle com perda de identidade, tentando recuperar, pela força, uma autoridade que nunca deveria ter existido. Foi então que percebi que essa conversa não era “apenas” sobre violência. Era sobre masculinidades. Porque nenhum menino nasce acreditando que uma mulher lhe pertence.

Ele aprende observando, ouvindo e sendo premiado por determinados comportamentos e ridicularizado por outros. Aprende, muitas vezes, sem que ninguém precise dizer uma única palavra. Talvez seja justamente por isso que transformar masculinidades seja uma estratégia tão poderosa de prevenção.

Não esperamos a violência acontecer para então combatê-la. Começamos muito antes. Quando ensinamos que cuidado não tem gênero. Que respeito não diminui ninguém. Que afeto não ameaça as nossas masculinidades. Que autoridade não é sinônimo de amor. Que poder não precisa existir dentro de uma relação.

No fim desse café imaginário, antes de ir embora, eu apenas agradeceria.

Muito obrigado, professora Heleieth!

Obrigado por me ajudar a compreender que combater a violência contra as mulheres exige muito mais do que punir agressores. Exige coragem para questionar a cultura que produz essa violência todos os dias. Principalmente, coragem para convidar os homens a reescreverem o roteiro que aprenderam. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do Agosto Lilás.

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O que Dostoiévski pode nos ensinar sobre a machosfera? https://homensquecuidam.com.br/o-que-dostoievski-pode-nos-ensinar-sobre-a-machosfera/ https://homensquecuidam.com.br/o-que-dostoievski-pode-nos-ensinar-sobre-a-machosfera/#respond Wed, 23 Sep 2026 12:46:23 +0000 https://homensquecuidam.com.br/?p=1428 Não pretendo fazer uma análise literária de Dostoiévski (Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski – 1821 – 1881). Seria uma pretensão que não me cabe. Mas lendo um pouco sobre a sua trajetória […]

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Não pretendo fazer uma análise literária de Dostoiévski (Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski – 1821 – 1881). Seria uma pretensão que não me cabe. Mas lendo um pouco sobre a sua trajetória fiquei pensativo. Ele viveu muitas vidas em uma só. Conheceu o sucesso ainda jovem, experimentou o fracasso, foi preso, condenado à morte, teve a execução suspensa no último minuto. Depois vieram o exílio, as perdas pessoais, o vício em jogos e a construção de mais obras maravilhosas.

Enquanto pensava sobre essa história, tentava elaborar uma conexão com as reflexões sobre as masculinidades (cabeça de uma pessoa com TDAH). Será que o que mais falta hoje não são respostas, mas disposição para aceitar que ninguém é uma coisa só? Dostoiévski parece nos lembrar o tempo todo disso. Seus personagens fazem escolhas admiráveis e escolhas terríveis. Eles amam e machucam, são generosos num momento e egoístas no outro. E talvez seja exatamente por isso que sua obra siga tão atual. Vivemos uma época fascinada por respostas fáceis, especialmente quando o assunto é “o ser homem”.

Basta abrir as redes sociais para encontrar um roteiro passo a passo. A promessa é sedutora. “Siga este modelo (de masculinidade) e você finalmente será um homem de verdade”. Talvez esteja aí parte do apelo da machosfera. Não porque ofereça boas respostas, mas porque oferece respostas fáceis para perguntas difíceis. Quem eu sou? O que eu faço com meus medos, com as frustrações, com minhas fragilidades?

Ao longo dos anos, em rodas de conversa, grupos de discussão e outros espaços de diálogo com homens, uma percepção nunca deixou de me acompanhar. Ninguém cabe num rótulo só. Encontro homens que causaram sofrimento e também homens que carregam sofrimentos profundos. Nada disso elimina a responsabilidade pelos seus atos. Mas responsabilizar é muito diferente de transformar alguém numa caricatura. Somos capazes do melhor e do pior. E talvez seja por isso que toda tentativa de reduzir uma pessoa a um rótulo diga mais sobre quem rotula do que sobre quem está sendo rotulado.

No fim, foi isso que essa reflexão despertou em mim. Não uma resposta sobre Dostoiévski, mas uma pergunta sobre nós. Será que o maior risco do nosso tempo não é a falta de referências, mas o excesso de discursos que prometem simplificar aquilo que sempre foi e continuará sendo profundamente humano?

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Depois do CONARH 2026, uma pergunta permanece: o cuidado corre o risco de se transformar em mais uma commodity? https://homensquecuidam.com.br/depois-do-conarh-2026-uma-pergunta-permanece-o-cuidado-corre-o-risco-de-se-transformar-em-mais-uma-commodity/ https://homensquecuidam.com.br/depois-do-conarh-2026-uma-pergunta-permanece-o-cuidado-corre-o-risco-de-se-transformar-em-mais-uma-commodity/#respond Mon, 24 Aug 2026 17:28:00 +0000 https://homensquecuidam.com.br/?p=1408 Nos últimos tempos o cuidado passou a ocupar um espaço cada vez maior nas conversas sobre liderança, saúde mental, cultura organizacional e gestão de pessoas. Esse movimento é importante. Durante […]

O post Depois do CONARH 2026, uma pergunta permanece: o cuidado corre o risco de se transformar em mais uma commodity? apareceu primeiro em Homens Que Cuidam.

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Nos últimos tempos o cuidado passou a ocupar um espaço cada vez maior nas conversas sobre liderança, saúde mental, cultura organizacional e gestão de pessoas. Esse movimento é importante. Durante muito tempo, cuidar foi tratado como algo menor, privado e quase sempre associado às mulheres. Ver o tema chegar ao centro das organizações pode representar um avanço. Mas também exige atenção. Vamos pensar juntos o porquê.

O cuidado não pode ser incorporado pelas empresas apenas como uma nova tendência, uma estratégia de reputação ou um diferencial competitivo. Quando isso acontece, ele corre o risco de se transformar em produto: algo que se anuncia, se vende e se utiliza para fortalecer marcas, sem necessariamente modificar as relações de poder, as condições de trabalho e os processos de decisão. Essa preocupação não significa negar a importância das iniciativas corporativas. Significa perguntar até onde elas chegam.

Quem continua realizando o trabalho cotidiano de cuidar? Quem reorganiza a própria vida para cuidar das crianças, das pessoas idosas, das pessoas com deficiência ou de familiares adoecidos? Quem assume a maior parte das tarefas domésticas e da sustentação emocional das famílias? No final das contas, esse trabalho continua recaindo, de maneira profundamente desigual, sobre as mulheres.

Como nos ajuda a compreender Nancy Fraser, existe uma contradição quando o sistema reconhece a importância do cuidado, mas continua consumindo o tempo, a energia e a disponibilidade das pessoas que sustentam esse trabalho, dentro e fora das organizações.

Também precisamos olhar para quem ocupa os lugares de poder. Muitas empresas ainda são dirigidas majoritariamente por homens, enquanto o cuidado permanece concentrado nas mulheres. Falar sobre cuidado sem enfrentar essa divisão é correr o risco de apenas modernizar o discurso, mantendo intacta a estrutura.

Joan Tronto nos ensina que o cuidado não é apenas um sentimento ou uma atitude individual. É uma prática coletiva e política, que envolve responsabilidade, competência, atenção às necessidades e capacidade de resposta. Por isso, uma organização verdadeiramente comprometida com o cuidado precisa ir além das campanhas, palestras e benefícios pontuais. Precisa observar como distribui responsabilidades, como organiza o trabalho, como reconhece as pessoas e como reage quando cuidar tem algum custo.

Há, na minha opinião, aqui um paralelo importante com as discussões em torno da saúde mental e da NR-1. O avanço institucional é necessário, mas ele não pode se limitar ao cumprimento de protocolos, à produção de documentos ou à adaptação formal a uma exigência normativa, sem enfrentar as culturas organizacionais que adoecem, silenciam e sobrecarregam as pessoas. O mesmo vale para o cuidado!

Se ele for utilizado apenas para melhorar indicadores, ampliar engajamento ou fortalecer a imagem da empresa, poderemos ter organizações falando cada vez mais sobre cuidado e pessoas continuando profundamente descuidadas.

Leonardo Boff nos lembra que o cuidado não é apenas uma ação eventual. É um modo de estar no mundo. Transportado para as organizações, isso significa compreender que cuidar não é uma campanha: é uma forma de liderar, produzir, decidir e se relacionar. O verdadeiro teste acontece quando o cuidado deixa de ser apenas “conveniente”.

  • Quando exige rever uma meta.
  • Quando pede tempo.
  • Quando questiona uma liderança.
  • Quando demanda investimento.
  • Quando reconhece que trabalhadores e trabalhadoras também possuem responsabilidades de cuidado fora da empresa.
  • Quando convida os homens a assumirem responsabilidades historicamente transferidas às mulheres.

O cuidado pode, sim, contribuir para organizações mais saudáveis, humanas e sustentáveis. Pode até gerar bons resultados. Mas ele não deveria existir apenas porque produz resultados.

Depois do CONARH 2026, talvez a pergunta mais importante não seja se o cuidado pode se tornar um diferencial competitivo. A pergunta é outra:

As empresas estão dispostas a transformar suas estruturas para que o cuidado seja, de fato, um princípio ético, inclusive quando cuidar custa?

Porque cuidado não pode ser apenas uma “tendência”. Cuidar envolve assumir e compartilhar inúmeras responsabilidades.

#HomensQueCuidam #CulturaDoCuidado #GestãoDePessoas #SaúdeMental #Liderança #CONARH2026

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NÃO É PATERNIDADE. NÃO É AMOR. É VIOLÊNCIA! https://homensquecuidam.com.br/nao-e-paternidade-nao-e-amor-e-violencia/ https://homensquecuidam.com.br/nao-e-paternidade-nao-e-amor-e-violencia/#respond Mon, 10 Aug 2026 17:19:23 +0000 https://homensquecuidam.com.br/?p=1405 Estamos dilacerados. Laís, de 5 anos, e Isis, de 3, foram mortas pelo próprio genitor, na zona sul de São Paulo. Segundo os registros policiais, ele já havia ameaçado a […]

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Estamos dilacerados.

Laís, de 5 anos, e Isis, de 3, foram mortas pelo próprio genitor, na zona sul de São Paulo. Segundo os registros policiais, ele já havia ameaçado a ex-companheira e confessou ter assassinado as meninas. A investigação aponta que o crime teria sido cometido para puni-la pelo fim do relacionamento.

Poucos dias antes, o Brasil conheceu a história de Gustavo, também de 3 anos. Chorando, ele dizia que não queria ir para a casa do pai porque apanhava. Ainda assim, a convivência foi mantida. O menino foi encontrado morto, com sinais de violência, e o genitor e sua atual companheira são investigados pelo crime.

Quantas crianças ainda precisarão morrer para que suas palavras, seus medos e seus corpos sejam levados a sério?

Uma criança que diz “ele me bate” não está produzindo uma prova contra alguém. Está fazendo um pedido de proteção.

Nenhuma convivência familiar pode estar acima da vida. Nenhuma acusação de “alienação parental” pode ser utilizada para desacreditar automaticamente uma mãe que denuncia ou uma criança que manifesta medo. Nenhuma ameaça contra uma mulher pode ser tratada como simples conflito entre adultos.

bell hooks nos ensina que amor não é apenas aquilo que alguém diz sentir. Amor é uma prática construída com cuidado, respeito, responsabilidade, compromisso, confiança e reconhecimento. Onde existe violência, controle, medo e destruição, não existe amor.

Não se agride “por amor”. Não se ameaça “por amor”. Não se mata “por amar demais”.

Heleieth Saffioti também nos ajuda a compreender que a violência não pode ser tratada como um ato isolado ou uma simples “perda de controle”. Ela nasce e se sustenta em relações desiguais de poder, nas quais alguns homens acreditam ter o direito de controlar a vida, o corpo e as decisões das mulheres.

Quando uma mulher rompe uma relação, reconstrói a própria vida ou deixa de se submeter, esse poder é confrontado. E, em sua expressão mais brutal, a violência tenta restabelecer o domínio pelo medo, pela punição e pela destruição.

Matar crianças para atingir uma ex-companheira é uma das manifestações mais cruéis dessa lógica. É transformar filhas e filhos em instrumentos de vingança. É agir como se aquelas vidas fossem propriedades disponíveis para ferir uma mulher.

Isso não surge do nada. Cresce em uma cultura que ensina alguns homens a confundirem amor com posse, autoridade com domínio, paternidade com direito e separação com humilhação. Por isso, responsabilizar os autores é indispensável, mas não é suficiente!

Precisamos enfrentar a cultura que forma homens para o controle e para a violência. Precisamos de instituições capazes de reconhecer os momentos de ruptura como situações de risco. Precisamos acolher as denúncias das mulheres e garantir uma escuta verdadeiramente protegida às crianças.

Escutar uma criança é uma responsabilidade. Acreditar em seu medo é o início da proteção. Investigar é obrigação. Proteger deve ser prioridade.

A Homens Que Cuidam afirma com toda a força:

DNA não transforma um homem em pai. Paternidade não é posse. Criança não é, e não pode ser, instrumento de vingança. A palavra da criança precisa ser acolhida e investigada. A proteção deve vir antes da convivência.

Não existe paternidade sem cuidado. Não existe amor onde há violência. Não existe direito de convivência acima do direito à vida.

Por Laís. Por Isis. Por Gustavo. Por todas as crianças e mulheres que pediram ajuda e não foram protegidas. Isso precisa acabar!

Homens Que Cuidam Afeto • Cuidado • Revolução

Ao perceber ou suspeitar de violência contra crianças e adolescentes, procure o Conselho Tutelar, acione a Polícia Militar pelo 190 ou denuncie pelo Disque 100, gratuitamente, 24 horas por dia.

#ProtejamAsCrianças #ViolênciaVicária #PaternidadeÉCuidado #HomensQueCuidam #DireitosDasCrianças

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Da Sociedade do Cansaço para uma Sociedade do Cuidado https://homensquecuidam.com.br/educacao-cultural-e-paterna-uma-nova-perspectiva/ https://homensquecuidam.com.br/educacao-cultural-e-paterna-uma-nova-perspectiva/#respond Wed, 11 Jun 2025 02:09:11 +0000 https://homensquecuidam.com.br/educacao-cultural-e-paterna-uma-nova-perspectiva/ Que segmento da nossa sociedade você acha que movimenta 580 bilhões de reais por ano, cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil? Tecnologia? Agro? Industria? Errou! Esse […]

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Que segmento da nossa sociedade você acha que movimenta 580 bilhões de reais por ano, cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil? Tecnologia? Agro? Industria? Errou! Esse é o valor estimado para o trabalho de cuidado com pessoas e tarefas domésticas no país, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Estas mesmas mulheres e meninas ao redor do mundo contribuem com pelo menos US$ 10,8 trilhões à economia global. Esse valor equivale a mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo (Fonte: Oxfam: Tempo de Cuidar).

A chamada “economia do cuidado” é o trabalho invisibilizado e não remunerado realizado majoritariamente por mulheres e meninas diariamente. Esta atividade envolve desde tarefas para manutenção do lar até o cuidado (funcional e afetivo) com crianças, idosos, pessoas doentes, com algum tipo de deficiência – e até mesmo outros membros da casa, como os maridos! “É um trabalho que tem uma forte dimensão emocional, se desenvolve na intimidade, e com frequência envolve a manipulação do corpo do outro”, diz a socióloga Nadya Araujo Guimarães, da Universidade de São Paulo (USP.

Quando os homens “pagam as contas” com dinheiro fruto de seus respectivos trabalhos produtivos (reconhecidos pela sociedade), as mulheres estão pagando com tempo, disponibilidade, abrindo mão muitas vezes das suas carreiras, sonhos, desejos e autonomia. Por outro lado, as lutas e conquistas das mulheres vem aumentando a sua participação do mercado de trabalho. Em cinco décadas, essa participação saltou de 18% para 50%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Contudo, a professora Nadya destaca o seguinte:

“Consideradas provedoras naturais dos serviços de cuidado, as mulheres passaram a trabalhar mais intensamente fora de casa. Esse fato, aliado ao envelhecimento da população, gerou o que tem sido analisado como uma crise no provimento de cuidados que, em países do hemisfério Norte, tem se resolvido com uma mercantilização desses serviços, além de uma maior atuação do Estado, por meio da criação de instituições públicas de acolhimento, expansão de políticas de financiamento, formação e regulação do trabalho de cuidadores”.

 

Ou seja, enquanto o cuidado for “obrigação” apenas das mulheres, não alcançaremos a equidade e a justiça no mundo do trabalho! Ou seja, como diz a filosofa e intelectual italiana, Silvia Federici ao se referir as tarefas do cuidado: “Isso que chamam de amor é trabalho não pago”. Esse apontamento encontra apoio nos estudos de uma outra socióloga, Heidi Gottfried, da Universidade Estadual Wayne, nos Estados Unidos, ao explicar que persiste na sociedade a noção arraigada de que o trabalho de cuidado seria uma “manifestação de amor” e, por essa razão, deveria ser prestado gratuitamente. Conforme Gottfried, a ideia decorre, entre outros aspectos, da construção cultural a respeito da maternidade e de que cuidar seria um talento feminino. Tudo muito conveniente para a manutenção do patriarcado e do machismo nosso de cada dia, não é mesmo?!

Pois bem. Nós precisamos colocar urgentemente os homens nessa discussão. Mais do que isso, precisamos assumir um papel de “homens incomuns”, como diz a psicanalista Vera Iaconelli, e nos posicionarmos diante desse cenário, posto que no dia a dia os dados de violência contra as mulheres, bem como da quantidade de “mães solo” revela uma triste realidade que escancara o quanto esse homem abusar e irresponsável é um homem comum. Ou seja, está bem mais perto de todos nós que as páginas policiais querem nos fazer acreditar, ao pintar esse indivíduo como “monstruoso”, “sujo” e “cruel” que surge num beco escuro. Portanto, o contrário daquele homem gentil, cortes e por vezes amável, com o qual nos relacionamos em nossas famílias, trabalho, etc.

E para a difícil e urgente tarefa de fazer emergir fileiras e mais fileiras de “homens incomuns”, que proponho que os rapazes que aqui me seguem se desafiem a acompanhar e participar de alguns movimentos que podem inspirá-los a oferecer uma contribuição mais efetiva no sentido de construirmos uma “sociedade do cuidado”, como ouvi surgir nas discussões de um evento que participei poucos dias atrás, em detrimento da “sociedade do cansaço”, apontada pelo filósofo sul-coreano- alemão, Byung Chul Han:

– Procure conhecer e fazer parte da Coalização Pela Licença Paternidade – CoPai;

– Procure textos e vídeos nas redes sociais que falem sobre a recém aprovada Política Nacional do Cuidado (Lei 15.069/2024);

– Se você é de São Paulo, procure saber sobre a recém-criada Frente Conjunta da Política de Cuidado, encampada por duas parlamentares do Estado;

– Faça parte da Comunidade Homens Que Cuidam, idealizada por esse que vos escreve e receba conteúdos de todas as novidades das iniciativas acima, bem como, tenha acesso a letramentos e conteúdos via redes socias, além de outras iniciativas para fomentar essa discussão.

(Prometo atualizar esse texto com outras iniciativas que estão pintando).

Enfim, te convido a fazer parte desse movimento por uma sociedade mais justa, afetuosa e saúdavel para todas as pessoas!

Abraços Inclusivos!
Lincoln Tavares

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Gostaria muito de compartilhar neste texto as experiências exitosas que tive a oportunidade de vivenciar em três oportunidades durante essa semana. Estive com os clientes UNICRED – Porto Alegre e a Irani S/A, ambas do Sul do país, onde promovi webinars sobre Parentalidade e seus desdobramentos relacionadas às paternidades e masculinidades. E a outra atividade também nessa semana, com as queridas parceiras Luciana Cattony e Susana Zaman, da Maternidade nas Empresas, que gentilmente me convidaram para uma live sobre o lançamento do seu e-book “Maternidade e carreira: combatendo os ruídos”, onde apresentam o que elas chamam de vieses da maternidade, manifestados por meio dos preconceitos e estereótipos sofridos pelas mulheres que exercem suas maternidades e carreiras.

No entanto, infelizmente é impossível celebrar essas iniciativas tão bacanas e necessárias sem comentar o triste caso do Desembargador Elci Simões, da 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) que, de maneira insensível e desrespeitosa assediou (no meu entendimento) moralmente a advogada Malu Borges Nunes, que participava – via videoconferência – de uma sessão plenária do referido tribunal, repreendendo-a por conta do choro de sua bebê, que estava em seu colo.

É inacreditável a falta de empatia e de alteridade desse senhor, que chegou a chamar o choro da bebê de “interferências outras na sala”, além de afirmar que era “uma sessão do tribunal e não pode ter cachorro latindo e criança chorando”. Para mim, o pior foram as a manifestações misóginas e desrespeitosas ao dizer: “se a senhora tiver alguma criança, coloque num ‘local adequado’” e “são barulhos que nos atrapalham, tiram a concentração. Eu acho que é preciso ver a ‘ética da advogada’”.

É inacreditável o que esse senhor entende como “ética”, já que a advogada está em sua própria casa, logo, o que seria um “local adequado”??? O julgamento e a opressão sofrida por essa mãe deixa bem clara a diferença de tratamento entre homens e mulheres no exercício da parentalidade, pois vale lembrar que, curiosamente, nesta mesma semana viralizou o caso de um pai, também advogado, que levou o seu bebê para uma sessão no Plenário da 2ª Turma do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Trata-se do advogado Felipe Cavallazzi, que foi amplamente “elogiado” pela “fofura” de estar com o seu filho no tribunal, chegando a receber “biscoito” do próprio magistrado que presidia a sessão, o Ministro Mauro Campbell.

O magistrado chegou a antecipar o julgamento, invocando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), afirmando que a Turma estava “sendo honrada pela presença do Lorenzo (filho do advogado), [que está] muito bem comportado, que já se agasalhou por causa do frio”. Que diferença, não? Obvio que são situações diferentes, em momentos diferentes, com pessoas diferentes. Mas é inegável o “impulso masculino” de exercitar a “brotheragem” com outros homens (e receber apoio de todos os lados por isso). Me lembrei também do caso do jornalista e correspondente da BandNews no Reino Unido, Felipe Kieling, que entrou num link ao vivo com o seu filho no colo e causou suspiros e uma sucessão de “biscoitagens”.

Será que essa tal ética e evocação do ECA só vale para enaltecer os homens e promover o julgamento das mulheres? Enquanto o advogado (e pai do ano!), Felipe Cavallazzi, agradeceu o ministro Mauro Campbell, dizendo que “mais uma vez, o STJ se prova como o tribunal da cidadania”. A advogada Malu Borges (a mãe descuidada e antiética, segundo o Desembargador), desabafou que: “Eu me senti primeiro ofendida como mulher, como mãe, como advogada também. Fiquei muito mal, chorei bastante depois. Eu me viro nos 30 para dar conta de bebê, casa, trabalho”.

Embora tenha começado lamentando o fato de não somente escrever esse texto compartilhando os encontros frutíferos que tive essa semana para dialogar sobre os caminhos do exercício da parentalidade, bem como, o letramento sobre os o “combate aos ruídos” direcionados às mulheres ensinado no e-book das poderosas do “Maternidade nas Empresas”, ressalto o quanto são importantes iniciativas como essas para problematizarmos tais acontecimentos relatados aqui para avançarmos na pauta da equidade de gênero e do combate das desigualdades, sobretudo no ambiente corporativo – em especial, neste caso, no universo do judiciário.

Texto publicado em 25.08/2022.

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A inquietação nos move, não é mesmo? Pelo menos deveria. Pois se não nos move, nos adoece. E eu não quero adoecer. Aliás, é oportuno falar em adoecimento e saúde mental nesse mês de setembro, não é mesmo? Afinal de contas, estamos todos no mesmo barco, certo? Errado! No máximo estamos compartilhando as mesmas tempestades. Uns, a bordo de um iate, outros (principalmente outras) num barquinho à vela. Uns contando com um experiente timoneiro, com modernos equipamentos de segurança, outros tendo que remar, se equilibrar e ainda cuidar das crianças da embarcação.

E essa minha inquietação tem dois motivos primordiais (e um outro que tem relação com o título deste artigo e falarei no final): o último relatório do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e o Relatório “Esgotadas”, produzida pelo extraordinário Laboratório da Think Olga de Exercícios de Futuro. Gravei um vídeo no meu Instagram (@homensquecuidam_) para falar de alguns números do anuário, mas acredito que há ainda muita coisa pra se falar e reverberar. Principalmente quando num dos subtítulos do documento lemos: “A explosão da violência sexual no Brasil”.

Os dados divulgados revelam um cenário devastador: o maior número de registros de estupro e estupro de vulnerável da história do nosso país, com 74.930 vítimas. Destes, 24,2% eram homens e mulheres com mais de 14 anos e 75,8% eram incapazes de consentir, fosse pela idade (menores de 14 anos), ou por qualquer outro motivo (deficiência, enfermidade etc.). O anuário registra o crescimento de todas as formas de violência contra a mulher em 2022.

O que os números revelam não é nada animador: os feminicídios cresceram 6,1% em 2022, resultando em 1.437 mulheres mortas simplesmente por serem mulheres. Além disso, registros de assédio sexual cresceram 49,7% e totalizaram 6.114 casos em 2022 e importunação sexual teve crescimento de 37%, chegando ao patamar de 27.530 casos no último ano. Obviamente estes números são aqueles notificados, o que não torna difícil a conclusão de que há muitos e muitos casos não notificados que fariam este relatório ser multiplicado por uma quantidade impublicável de vezes.

E quando o assunto é a carga mental, cabe compartilhar a definição que consta no trabalho feito pela Think Olga: “A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde mental como um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de utilizar suas habilidades cognitivas e emocionais, lidar com as demandas e o estresse cotidianos e contribuir para a sua comunidade. A saúde mental é um componente integral da saúde e qualidade de vida das pessoas, e engloba o bem-estar emocional, psicológico e social.”

E os reflexos dessa ausência da saúde mental impactam de maneira insuportável as mulheres. Pois, segundo o relatório, antes mesmo da pandemia da COVID-19: 67% das mulheres apresentavam transtornos de ansiedade e transtornos depressivos, contra 33% dos homens. Números que se inverteram quando se observam os números dos transtornos relacionados ao uso de álcool, sendo de 76% a incidência sobre os homens e 24% sobre as mulheres.

E para entendermos como está a saúde mental das brasileiras hoje, a Think Olga entrevistou 1.078 mulheres com mais de 18 anos de todas as classes e de todas as regiões do país. As entrevistas foram realizadas online entre os dias 12 e 26 de maio de 2023 e a margem de erro é de 3 pontos percentuais e o intervalo de confiança é de 95%. A pesquisa traz uma riqueza de recortes por classe social, renda familiar, faixa etária, raça/etnia, número de filhos, entre outros, onde são abordados temas como os sentimentos frequentes do dia a dia, índices de insatisfação em relação a diversas áreas da vida (os índices de satisfação máxima não ultrapassam os 30%), acesso à educação, habitação, alimentação, renda digna, emprego, transporte, cultura, entre outros.

Mas não se engane. Pois todas estas constatações (e muitas outras) apresentadas no relatório “Esgotadas” têm impacto (nocivo) direto na vida de todos nós: homens, mulheres, crianças, etc. Contudo, não haverá saída para esse impasse e doença social enquanto nós homens não nos implicarmos diretamente nesse diálogo! E para respaldar o que afirmei aqui, recorro a uma das minhas intelectuais favoritas, a maravilhosa bell hooks, diz o seguinte em seu livro The Will to Change: Men, Masculinity, and Love. New York: Washington Square Press, 2004:

“O patriarcado é a doença social que mais eminentemente põe em risco a vida, agride o corpo e o espírito masculino em nossa nação. No entanto, a maioria dos homens não usa a palavra "patriarcado" na vida cotidiana. A maioria deles nunca pensa em patriarcado - o que significa, como foi criado e sustentado. Muitos homens em nossa nação não sabem soletrar a palavra ou pronunciá-la corretamente. A palavra "patriarcado" simplesmente não faz parte do pensamento ou do discurso cotidiano. Homens que ouviram e conhecem a palavra, geralmente a associam à libertação das mulheres, ao feminismo, e acabam descartando-a como irrelevante para suas próprias experiências”.

Percebamos que é exatamente aí que mora o problema! Achar que as pautas sobre o patriarcado, machismo, sexismo, misoginia, equidade de gênero, economia do cuidado e saúde mental “assustam os homens” e devem ser revestidas com tintas mais discretas e ter até as nomenclaturas “camufladas” é, na minha opinião, um grande equívoco. Afinal de contas, como sempre ouvimos dos movimentos feministas: Nem todo homem, mas sempre um homem!

Ademais, enquanto pensarmos assim, não relacionaremos o quanto dados como o número de mães solo no Brasil (aquelas que cuidam sozinhas de seus filhos), que aumentou 17% na última década, passando de 9,6 milhões em 2012 para mais de 11 milhões em 2022 são forças contrárias à luta por equidade oportunidades no mercado de trabalho, por exemplo, pois a probabilidade de uma mulher sem filhos ter estudado até o ensino superior é 112% maior do que na fatia de mães de crianças pequenas.

Neste sentido, está na hora de questionarmos o que eu chamo de “efeito cinto de segurança do patriarcado” quando refletimos sobre a participação (e corresponsabilidade) de nós homens nestes temas relacionados à saúde mental e à economia do cuidado (trabalho invisível e não remunerado) que tanto afetam as mulheres. Explico. Você sabia que o cinto de segurança foi inventado há 120 anos (em 1903), por um francês chamado Gustave Desiré Liebau, mas somente cerca de 50 anos depois começou a ser fabricado junto com os veículos? E mais. Sabia que aqui no Brasil ele (o cinto) só se tornou obrigatório por meio da Lei 9.503 de 1997?

Pois é. Hoje ninguém mais questiona se deve usar ou não o tal do cinto de segurança, não é mesmo? Até porque, abundam pesquisas e campanhas de conscientização sobre a sua eficácia e importância. Neste sentido, eu te pergunto: quanto tempo mais teremos que “chegar com jeitinho” e contemporizar com os homens, sobretudo os líderes das empresas - mas não só eles - sobre os dados compartilhados aqui?

Ouço constantemente, sobretudo de muitas mulheres, que: “Ah, Lincoln, mas se você falar dessa maneira vai afastar os homens dessas pautas”. Olha, gente, se continuarmos pensando assim, e aqui não quero invalidar a importância do conceito de “criar pontes” e até mesmo de ferramentas como a da CNV (Comunicação Não-Violenta), nada mudará e não chegaremos a lugar nenhum!

E para finalizar, mais uma vez cito as reflexões da incomparável bell hooks em seu livro “O feminismo é para todo mundo – práticas arrebatadoras”, que nos coloca para refletir sobre o que precede o patriarcado (e o próprio machismo), que nada mais é do que o sexismo. Ou seja, a ideia de “papéis de gênero”:

“(...) Muitas vezes, no início do feminismo contemporâneo, formaram-se grupos de homens sem abordar, de maneira alguma, questões relacionadas a sexismo e dominação masculina. Assim, como o feminismo baseado em estilo de vida era focado em mulheres, esses grupos com frequência se tornavam ambiente de terapia para homens lidarem com suas feridas, sem haver crítica ao patriarcado ou plataforma de resistência à dominação masculina. (...) Um homem despojado de privilégios masculinos, que aderiu às políticas feministas, é um companheiro valioso de luta, e de maneira alguma é ameaça ao feminismo; enquanto uma mulher que se mantem apegada ao pensamento e comportamento sexistas, infiltrando o movimento feminista, é uma perigosa ameaça”.

Avancemos!

Abraços Inclusivos!

Lincoln Tavares

Signatário do Movimento de Solidariedade pela Igualdade de Gênero – He For She – da ONU Mulheres, membro do Coletivo Paternando, do Fórum Paulistano de Masculinidades, da Rede Brasileira de Masculinidades e colaborador do Grupo Mulheres do Brasil – Barueri/SP. Membro da ONG BSGI (Brasil Soka Gakkai Internacional), uma instituição filiada à ONU que atua pela paz, cultura e educação.

Texto Públicado em 06/09/2023.

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Contei aqui no último artigo os bastidores de um dia de trabalho e os desafios que eu e a minha companheira Charlene enfrentamos para bancar a parentalidade que acreditamos. Escolhas – que se impõe ou podem ser feitas por quem tem esse privilégio. E nesse sentido, quero compartilhar agora o quanto tenho experenciado a parentalidade e o trabalho com uma espécie de “colinha” entre elas: a culpa que, embora seja uma praga, também tem muito amor envolvido.

A inspiração para contar essa história surgiu quando assisti um programa da TV Cultura que gosto muito, o Provoca, apresentado pelo jornalista Marcelo Tas, e que no último dia 7 de junho contou com uma convidada pra lá de especial: a psicanalista Vera Iaconelli, da qual eu sou fã e acompanho o trabalho há tempos. Inclusive, li recentemente um dos seus livros como coautora, a obra “Parentalidade” (tema que ela é uma referência), da coleção Parentalidade & Psicanálise.

Iaconelli também tem iniciativas valorosas, como a criação do Instituto Gerar de Psicanálise que, entre outros vários empreendimentos extraordinários, promove pesquisas e populariza o acesso ao acompanhamento psicanalítico (popularmente chamado de “terapia”, que aliás, minha esposa faz acompanhamento há alguns anos).

Vera citou o filósofo francês Michel Foucault para trazer uma forma curiosa com a qual o intelectual explicava a questão das escolhas que, conforme explica, significavam perdas inevitáveis. Afinal de contas, não é possível termos tudo, não é mesmo? Vera explicou que o pensador usava a imagem do ladrão, que ao nos assaltar diz: “a bolsa ou a vida?”. Iaconelli observa que se a pessoa escolher a bolsa ela perde os dois. Ou seja, é preciso deixar várias bolsas pelo caminho se quisermos seguir em frente.

Pois bem. Embora tenha relatado o quanto fiquei emocionado e feliz com a ligação afetuosa que temos em nossa família – e o quanto nós estamos sempre buscando melhorar – nem por isso os desafios e as frustrações deixam de ser constantes. Há pouco mais de uma semana notamos que o comportamento da Madí estava um pouco alterado, demonstrando irritação, impaciência e uma certa agressividade. Conversamos bastante, eu e a minha esposa, e entendemos que precisávamos investigar com a nossa pequena o que estava acontecendo, a fim de interpretar o porquê de tais comportamentos.

A advogada e escritora Ruth Manus (mais uma dica, pois sou fã!) fala do quanto esse sentimento (da culpa) persegue as mulheres: “É como se ela estivesse pendurada numa correntinha o redor do pescoço. Um pingente de culpa que a gente nunca tira”. A culpa também habita em nós homens, talvez com uma nuance muito peculiar, que é a dificuldade de reconhecê-la e até mesmo nomeá-la. E pior de tudo, a negação, que vem associada ao não reconhecimento da nossa imaturidade – reflexo de uma sociedade que, entre outros fatores, não permite que demonstremos os nossos sentimentos, que são muitas vezes associados à fraqueza e a fragilidade – características das quais nós fugimos tanto!

Como disse, nos últimos tempos tenho “escolhido a vida”, o que significa a expansão da minha consciência quanto ao compartilhamento dos cuidados com a nossa filha e o trabalho doméstico. Mas olha como não é tão simples assim, pois isso não significa que vejo o meu trabalho como educador / consultor de diversidade, equidade e Inclusão como a representação da “da bolsa”, segundo Foucault. Até porque, trabalho também pode representar afeto, cuidado, que para muitos, muitos homens não é apenas “uma escolha”, mas algo que se impõe.

Lembra quando disse que a Madi estava com um comportamento diferente? Pois é. Percebemos juntos que a Madi estava passando muito tempo no celular e no computador antes de ir para a escola. Ela entra às 13h30, e temos toda uma rotina no período da manhã que se adapta às minhas reuniões de trabalho, atendimento de clientes, afazeres da casa etc. Opa! Olha aí o problema! A atenção e o afeto dedicados à nossa filha neste caso estavam no “etc”. Pelo menos foi essa a minha leitura, considerando os meus privilégios.

Ou seja, como disse anteriormente, cuidar da casa, dos filhos, trabalhar (fora ou dentro de casa) são todas demonstrações de afeto e de cuidado. Mas para mim, rolou um sentimento pesado de culpa por imaginar que a nossa filha estava passando mais tempo nas telas do que comigo.

E o que vou contar aqui me deixa bem envergonhado, mas seguirei os conselhos da escritora Brené Brown em seu livro “A coragem de ser imperfeito”, e vou me vulnerabilizar compartilhando algo bem pessoal, com o intuito de contribuir com a jornada de outros pais. Madi, que tem menos de 7 anos de idade, usou o meu celular para fazer várias compras num determinado aplicativo. E o mais impressionante: mudou a minha senha de acesso e tudo!

Descobri e cancelei as compras a tempo, pois recebi um aviso no meu e-mail. Aliás, quase ao mesmo tempo em que a minha sogra, que mora no mesmo prédio que a gente, nos contou que a havia recebido um pedido de “segredo” da neta, pois tinha feito algo muito errado. Nesse dia fiquei muito, muito mal. Muito triste. Quase não dormi a noite e a culpa inundou o meu coração. O que estou fazendo de errado? Conversamos muito qual seria a melhor maneira de abordar o assunto com a Madi, e confesso que também senti muita raiva.

Processamos todos os nossos sentimentos e entendemos que castigá-la não seria inteligente da nossa parte, pois li certa vez que esse tipo de atitude só reforça o instinto das crianças de fazer as coisas da forma que eles querem. Além disso, já não acreditávamos antes que “castigar” combinasse com a maneira mais adequada de educar uma pessoa. Não funcionou muito bem na minha infância (a terapia me mostrou!). Acreditamos que o caminho é o diálogo e o acolhimento.

Isso não quer dizer que não devemos colocar limites e estabelecer regras. Combinamos de buscá-la juntos na escola. Paramos num café, tomamos um lanche bem gostoso e dialogamos sinceramente. Falamos sobre as consequências do que ela havia feito. E da gravidade também. Eu disse o quanto fiquei triste, e até mesmo decepcionado. Mas não deixei de apontar que não estávamos aproveitando muito bem o nosso tempo (e que isso era de minha absoluta responsabilidade). Daí, repensamos a rotina e estabelecemos novos combinados.

Nada de celular por enquanto (antes o combinado era de uma hora pela manhã e uma hora uma a noite). E para isso, eu me comprometi a ficar mais pertinho dela, o que significa deixar que use o computador, mas na sala, onde eu possa ver (e não no escritório, como antes), além de levá-la no parquinho do prédio pelo menos 30 minutos (ou brincando dentro de casa mesmo) antes da escola. Não é nada fácil, mas estamos conseguindo. Madi tem se mostrado mais tranquila e ainda mais carinhosa.

Quanto à culpa relacionada a falta de atenção dada a nossa filhota, temos trabalhado isso juntos, e juntos temos seguido em frente! Aliás, como de costume, sempre mostro os meus textos para a Charlene e peço que corrija, opine e aponte o que lhe incomoda. Faço cara feia, me incomodo e contra-argumento, mas não público sem essa troca.

Sigamos!

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