Nos últimos tempos o cuidado passou a ocupar um espaço cada vez maior nas conversas sobre liderança, saúde mental, cultura organizacional e gestão de pessoas. Esse movimento é importante. Durante muito tempo, cuidar foi tratado como algo menor, privado e quase sempre associado às mulheres. Ver o tema chegar ao centro das organizações pode representar um avanço. Mas também exige atenção. Vamos pensar juntos o porquê.

O cuidado não pode ser incorporado pelas empresas apenas como uma nova tendência, uma estratégia de reputação ou um diferencial competitivo. Quando isso acontece, ele corre o risco de se transformar em produto: algo que se anuncia, se vende e se utiliza para fortalecer marcas, sem necessariamente modificar as relações de poder, as condições de trabalho e os processos de decisão. Essa preocupação não significa negar a importância das iniciativas corporativas. Significa perguntar até onde elas chegam.

Quem continua realizando o trabalho cotidiano de cuidar? Quem reorganiza a própria vida para cuidar das crianças, das pessoas idosas, das pessoas com deficiência ou de familiares adoecidos? Quem assume a maior parte das tarefas domésticas e da sustentação emocional das famílias? No final das contas, esse trabalho continua recaindo, de maneira profundamente desigual, sobre as mulheres.

Como nos ajuda a compreender Nancy Fraser, existe uma contradição quando o sistema reconhece a importância do cuidado, mas continua consumindo o tempo, a energia e a disponibilidade das pessoas que sustentam esse trabalho, dentro e fora das organizações.

Também precisamos olhar para quem ocupa os lugares de poder. Muitas empresas ainda são dirigidas majoritariamente por homens, enquanto o cuidado permanece concentrado nas mulheres. Falar sobre cuidado sem enfrentar essa divisão é correr o risco de apenas modernizar o discurso, mantendo intacta a estrutura.

Joan Tronto nos ensina que o cuidado não é apenas um sentimento ou uma atitude individual. É uma prática coletiva e política, que envolve responsabilidade, competência, atenção às necessidades e capacidade de resposta. Por isso, uma organização verdadeiramente comprometida com o cuidado precisa ir além das campanhas, palestras e benefícios pontuais. Precisa observar como distribui responsabilidades, como organiza o trabalho, como reconhece as pessoas e como reage quando cuidar tem algum custo.

Há, na minha opinião, aqui um paralelo importante com as discussões em torno da saúde mental e da NR-1. O avanço institucional é necessário, mas ele não pode se limitar ao cumprimento de protocolos, à produção de documentos ou à adaptação formal a uma exigência normativa, sem enfrentar as culturas organizacionais que adoecem, silenciam e sobrecarregam as pessoas. O mesmo vale para o cuidado!

Se ele for utilizado apenas para melhorar indicadores, ampliar engajamento ou fortalecer a imagem da empresa, poderemos ter organizações falando cada vez mais sobre cuidado e pessoas continuando profundamente descuidadas.

Leonardo Boff nos lembra que o cuidado não é apenas uma ação eventual. É um modo de estar no mundo. Transportado para as organizações, isso significa compreender que cuidar não é uma campanha: é uma forma de liderar, produzir, decidir e se relacionar. O verdadeiro teste acontece quando o cuidado deixa de ser apenas “conveniente”.

  • Quando exige rever uma meta.
  • Quando pede tempo.
  • Quando questiona uma liderança.
  • Quando demanda investimento.
  • Quando reconhece que trabalhadores e trabalhadoras também possuem responsabilidades de cuidado fora da empresa.
  • Quando convida os homens a assumirem responsabilidades historicamente transferidas às mulheres.

O cuidado pode, sim, contribuir para organizações mais saudáveis, humanas e sustentáveis. Pode até gerar bons resultados. Mas ele não deveria existir apenas porque produz resultados.

Depois do CONARH 2026, talvez a pergunta mais importante não seja se o cuidado pode se tornar um diferencial competitivo. A pergunta é outra:

As empresas estão dispostas a transformar suas estruturas para que o cuidado seja, de fato, um princípio ético, inclusive quando cuidar custa?

Porque cuidado não pode ser apenas uma “tendência”. Cuidar envolve assumir e compartilhar inúmeras responsabilidades.

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