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Que segmento da nossa sociedade você acha que movimenta 580 bilhões de reais por ano, cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil? Tecnologia? Agro? Industria? Errou! Esse é o valor estimado para o trabalho de cuidado com pessoas e tarefas domésticas no país, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Estas mesmas mulheres e meninas ao redor do mundo contribuem com pelo menos US$ 10,8 trilhões à economia global. Esse valor equivale a mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo (Fonte: Oxfam: Tempo de Cuidar).

A chamada “economia do cuidado” é o trabalho invisibilizado e não remunerado realizado majoritariamente por mulheres e meninas diariamente. Esta atividade envolve desde tarefas para manutenção do lar até o cuidado (funcional e afetivo) com crianças, idosos, pessoas doentes, com algum tipo de deficiência – e até mesmo outros membros da casa, como os maridos! “É um trabalho que tem uma forte dimensão emocional, se desenvolve na intimidade, e com frequência envolve a manipulação do corpo do outro”, diz a socióloga Nadya Araujo Guimarães, da Universidade de São Paulo (USP.

Quando os homens “pagam as contas” com dinheiro fruto de seus respectivos trabalhos produtivos (reconhecidos pela sociedade), as mulheres estão pagando com tempo, disponibilidade, abrindo mão muitas vezes das suas carreiras, sonhos, desejos e autonomia. Por outro lado, as lutas e conquistas das mulheres vem aumentando a sua participação do mercado de trabalho. Em cinco décadas, essa participação saltou de 18% para 50%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Contudo, a professora Nadya destaca o seguinte:

“Consideradas provedoras naturais dos serviços de cuidado, as mulheres passaram a trabalhar mais intensamente fora de casa. Esse fato, aliado ao envelhecimento da população, gerou o que tem sido analisado como uma crise no provimento de cuidados que, em países do hemisfério Norte, tem se resolvido com uma mercantilização desses serviços, além de uma maior atuação do Estado, por meio da criação de instituições públicas de acolhimento, expansão de políticas de financiamento, formação e regulação do trabalho de cuidadores”.

 

Ou seja, enquanto o cuidado for “obrigação” apenas das mulheres, não alcançaremos a equidade e a justiça no mundo do trabalho! Ou seja, como diz a filosofa e intelectual italiana, Silvia Federici ao se referir as tarefas do cuidado: “Isso que chamam de amor é trabalho não pago”. Esse apontamento encontra apoio nos estudos de uma outra socióloga, Heidi Gottfried, da Universidade Estadual Wayne, nos Estados Unidos, ao explicar que persiste na sociedade a noção arraigada de que o trabalho de cuidado seria uma “manifestação de amor” e, por essa razão, deveria ser prestado gratuitamente. Conforme Gottfried, a ideia decorre, entre outros aspectos, da construção cultural a respeito da maternidade e de que cuidar seria um talento feminino. Tudo muito conveniente para a manutenção do patriarcado e do machismo nosso de cada dia, não é mesmo?!

Pois bem. Nós precisamos colocar urgentemente os homens nessa discussão. Mais do que isso, precisamos assumir um papel de “homens incomuns”, como diz a psicanalista Vera Iaconelli, e nos posicionarmos diante desse cenário, posto que no dia a dia os dados de violência contra as mulheres, bem como da quantidade de “mães solo” revela uma triste realidade que escancara o quanto esse homem abusar e irresponsável é um homem comum. Ou seja, está bem mais perto de todos nós que as páginas policiais querem nos fazer acreditar, ao pintar esse indivíduo como “monstruoso”, “sujo” e “cruel” que surge num beco escuro. Portanto, o contrário daquele homem gentil, cortes e por vezes amável, com o qual nos relacionamos em nossas famílias, trabalho, etc.

E para a difícil e urgente tarefa de fazer emergir fileiras e mais fileiras de “homens incomuns”, que proponho que os rapazes que aqui me seguem se desafiem a acompanhar e participar de alguns movimentos que podem inspirá-los a oferecer uma contribuição mais efetiva no sentido de construirmos uma “sociedade do cuidado”, como ouvi surgir nas discussões de um evento que participei poucos dias atrás, em detrimento da “sociedade do cansaço”, apontada pelo filósofo sul-coreano- alemão, Byung Chul Han:

– Procure conhecer e fazer parte da Coalização Pela Licença Paternidade – CoPai;

– Procure textos e vídeos nas redes sociais que falem sobre a recém aprovada Política Nacional do Cuidado (Lei 15.069/2024);

– Se você é de São Paulo, procure saber sobre a recém-criada Frente Conjunta da Política de Cuidado, encampada por duas parlamentares do Estado;

– Faça parte da Comunidade Homens Que Cuidam, idealizada por esse que vos escreve e receba conteúdos de todas as novidades das iniciativas acima, bem como, tenha acesso a letramentos e conteúdos via redes socias, além de outras iniciativas para fomentar essa discussão.

(Prometo atualizar esse texto com outras iniciativas que estão pintando).

Enfim, te convido a fazer parte desse movimento por uma sociedade mais justa, afetuosa e saúdavel para todas as pessoas!

Abraços Inclusivos!
Lincoln Tavares

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Fui convidado para palestrar pelo segundo ano consecutivo no evento “Encontro com a Diversidade”, promovido pelas empresas Irani e Habitasul. E para a minha alegria, a proposta era de que eu falasse sobre Diversidade Organizacional da perspectiva das masculinidades.

O evento foi maravilhoso, de altíssimo nível, e contou com a participação ativa do seu Diretor Presidente, Sérgio Ribas, bem como, com a organização das queridíssimas Bianca Salatino e Claudia Vergara. Além disso, a minha parceira de negócios e querida amiga, Daniela Medeiros - que fez a mediação do encontro com maestria - e contou também com as potentes palestras das poderosas Amanda Padilha e Professora Lourdes Alves.

Bem, eu não pretendo falar do evento em si. Aliás, ele foi transmitido via Youtube e contou também com cerca de 130 participantes da companhia que acompanharam a iniciativa espontaneamente. Mas, quero contar um fundo de cena que muito tem a ver com o tema que abordei e venho discorrendo aqui nessa newsletter e é algo que procuro exercitar como práxis o máximo possível: o meu papel como papai da Maria Lídia, nossa filha de seis anos e a parentalidade compartilhada com a minha companheira, Charlene S.T. de Melo e a minha atuação como educador e mentor de Diversidade, Equidade e Inclusão.

Meus clientes e parceiros já estão acostumadas com as “intervenções fofas” da Madí (apelido da nossa filha), que vira e mexe aparece nas transmissões via Zoom ou outras plataformas que têm sido minhas fiéis ferramentas online nos últimos dois anos (já que boa parte do meu trabalho é conduzido de casa). E o mais bacana é que eu também conheço muitos dos filhos, e até mesmo outros integrantes da família (inclusive, cachorros e gatos) destes mesmos clientes e parceiros.

Minha esposa é dentista do Sistema Único de Saúde (SUS), e tem um horário fixo de trabalho. Daí, toda a dinâmica da nossa casa é ajustada para estas duas realidades: o deslocamento para trabalho da minha esposa e o meu em regime home-office. Mas não posso deixar de compartilhar as atividades da Madí: escola, natação, judô, etc. Pois bem, neste dia do evento, como de costume, nos organizamos para tocar as rotinas da casa da melhor forma possível, o que inclui tomar banho, preparar o nosso café (e ajudar a Madí a se servir), levar a Amora (nossa cachorra) na rua, etc, etc.

Acontece que no dia anterior, à noite, a Madí comentou em tom de tristeza que estava sentindo saudades da mamãe e que gostaria de passar mais tempo com ela. Obviamente minha esposa ficou mexida com o desabafo e procurou, como sempre fazemos, dialogar de maneira aberta e transparente com a nossa pequena. Mas, é mesmo um desafio conciliar a atenção e o afeto com a família, as tarefas domésticas e as atividades profissionais. Não teve jeito, ambas foram dormir um pouco chateadas.

E como disse, como boa parte do meu trabalho é feito de casa, tenho os meus combinados com a nossa filha, que incluem aquela corridinha no intervalo de uma palestra, workshop ou mentoria para saber como ela está, dar um beijinho e um abraço e checar se ela precisa de mais alguma coisa. Aliás, um outro combinado é deixar que ela entre no escritório e venha falar comigo caso precise de algo. E o jeito que ela faz isso é muito bonitinho. Ela entre devagarinho sem bater na porta, se posiciona no meu campo de visão e fica esperando que eu olhe para ela. Daí ela pergunta balbuciando: posso falar papai?

Como de costume, como podem ver na foto a acima, ela veio me perguntar se eu iria demorar muito. Estou acostumado e procuro deixá-la o mais à vontade possível. As vezes ela quer dar um “oizinho”, outras vezes não. Mas o que mais me chamou a atenção neste dia aconteceu depois que o evento acabou. Ou melhor, antes um pouco, na hora do intervalo, fui tomar um cafezinho e checar como ela estava e vi uma carta no braço do sofá. Era da minha esposa para a Madí. Nela ela dizia o quanto amava a nossa filha e que voltaria o mais rápido possível do trabalho para ficar com ela. Dizia também que havia deixado “o leitinho e ovinho na mesa, prontos, para você não se preocupar em chamar o papai”.

O melhor e tudo, além do afeto, do cuidado e do amor que permeia toda essa relação familiar que cultivamos, a Madí me disse quando o evento acabou: “Papai, quando li a carta da mamãe eu fiquei muito emocionada e meus olhos encheram de água!”

O que dizer? Chorei também!

Abraços Inclusivos!
Lincoln Tavares

Texto publicado em 26/05/2022.

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