A inquietação nos move, não é mesmo? Pelo menos deveria. Pois se não nos move, nos adoece. E eu não quero adoecer. Aliás, é oportuno falar em adoecimento e saúde mental nesse mês de setembro, não é mesmo? Afinal de contas, estamos todos no mesmo barco, certo? Errado! No máximo estamos compartilhando as mesmas tempestades. Uns, a bordo de um iate, outros (principalmente outras) num barquinho à vela. Uns contando com um experiente timoneiro, com modernos equipamentos de segurança, outros tendo que remar, se equilibrar e ainda cuidar das crianças da embarcação.
E essa minha inquietação tem dois motivos primordiais (e um outro que tem relação com o título deste artigo e falarei no final): o último relatório do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e o Relatório “Esgotadas”, produzida pelo extraordinário Laboratório da Think Olga de Exercícios de Futuro. Gravei um vídeo no meu Instagram (@homensquecuidam_) para falar de alguns números do anuário, mas acredito que há ainda muita coisa pra se falar e reverberar. Principalmente quando num dos subtítulos do documento lemos: “A explosão da violência sexual no Brasil”.
Os dados divulgados revelam um cenário devastador: o maior número de registros de estupro e estupro de vulnerável da história do nosso país, com 74.930 vítimas. Destes, 24,2% eram homens e mulheres com mais de 14 anos e 75,8% eram incapazes de consentir, fosse pela idade (menores de 14 anos), ou por qualquer outro motivo (deficiência, enfermidade etc.). O anuário registra o crescimento de todas as formas de violência contra a mulher em 2022.
O que os números revelam não é nada animador: os feminicídios cresceram 6,1% em 2022, resultando em 1.437 mulheres mortas simplesmente por serem mulheres. Além disso, registros de assédio sexual cresceram 49,7% e totalizaram 6.114 casos em 2022 e importunação sexual teve crescimento de 37%, chegando ao patamar de 27.530 casos no último ano. Obviamente estes números são aqueles notificados, o que não torna difícil a conclusão de que há muitos e muitos casos não notificados que fariam este relatório ser multiplicado por uma quantidade impublicável de vezes.
E quando o assunto é a carga mental, cabe compartilhar a definição que consta no trabalho feito pela Think Olga: “A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde mental como um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de utilizar suas habilidades cognitivas e emocionais, lidar com as demandas e o estresse cotidianos e contribuir para a sua comunidade. A saúde mental é um componente integral da saúde e qualidade de vida das pessoas, e engloba o bem-estar emocional, psicológico e social.”
E os reflexos dessa ausência da saúde mental impactam de maneira insuportável as mulheres. Pois, segundo o relatório, antes mesmo da pandemia da COVID-19: 67% das mulheres apresentavam transtornos de ansiedade e transtornos depressivos, contra 33% dos homens. Números que se inverteram quando se observam os números dos transtornos relacionados ao uso de álcool, sendo de 76% a incidência sobre os homens e 24% sobre as mulheres.
E para entendermos como está a saúde mental das brasileiras hoje, a Think Olga entrevistou 1.078 mulheres com mais de 18 anos de todas as classes e de todas as regiões do país. As entrevistas foram realizadas online entre os dias 12 e 26 de maio de 2023 e a margem de erro é de 3 pontos percentuais e o intervalo de confiança é de 95%. A pesquisa traz uma riqueza de recortes por classe social, renda familiar, faixa etária, raça/etnia, número de filhos, entre outros, onde são abordados temas como os sentimentos frequentes do dia a dia, índices de insatisfação em relação a diversas áreas da vida (os índices de satisfação máxima não ultrapassam os 30%), acesso à educação, habitação, alimentação, renda digna, emprego, transporte, cultura, entre outros.
Mas não se engane. Pois todas estas constatações (e muitas outras) apresentadas no relatório “Esgotadas” têm impacto (nocivo) direto na vida de todos nós: homens, mulheres, crianças, etc. Contudo, não haverá saída para esse impasse e doença social enquanto nós homens não nos implicarmos diretamente nesse diálogo! E para respaldar o que afirmei aqui, recorro a uma das minhas intelectuais favoritas, a maravilhosa bell hooks, diz o seguinte em seu livro The Will to Change: Men, Masculinity, and Love. New York: Washington Square Press, 2004:
“O patriarcado é a doença social que mais eminentemente põe em risco a vida, agride o corpo e o espírito masculino em nossa nação. No entanto, a maioria dos homens não usa a palavra “patriarcado” na vida cotidiana. A maioria deles nunca pensa em patriarcado – o que significa, como foi criado e sustentado. Muitos homens em nossa nação não sabem soletrar a palavra ou pronunciá-la corretamente. A palavra “patriarcado” simplesmente não faz parte do pensamento ou do discurso cotidiano. Homens que ouviram e conhecem a palavra, geralmente a associam à libertação das mulheres, ao feminismo, e acabam descartando-a como irrelevante para suas próprias experiências”.
Percebamos que é exatamente aí que mora o problema! Achar que as pautas sobre o patriarcado, machismo, sexismo, misoginia, equidade de gênero, economia do cuidado e saúde mental “assustam os homens” e devem ser revestidas com tintas mais discretas e ter até as nomenclaturas “camufladas” é, na minha opinião, um grande equívoco. Afinal de contas, como sempre ouvimos dos movimentos feministas: Nem todo homem, mas sempre um homem!
Ademais, enquanto pensarmos assim, não relacionaremos o quanto dados como o número de mães solo no Brasil (aquelas que cuidam sozinhas de seus filhos), que aumentou 17% na última década, passando de 9,6 milhões em 2012 para mais de 11 milhões em 2022 são forças contrárias à luta por equidade oportunidades no mercado de trabalho, por exemplo, pois a probabilidade de uma mulher sem filhos ter estudado até o ensino superior é 112% maior do que na fatia de mães de crianças pequenas.
Neste sentido, está na hora de questionarmos o que eu chamo de “efeito cinto de segurança do patriarcado” quando refletimos sobre a participação (e corresponsabilidade) de nós homens nestes temas relacionados à saúde mental e à economia do cuidado (trabalho invisível e não remunerado) que tanto afetam as mulheres. Explico. Você sabia que o cinto de segurança foi inventado há 120 anos (em 1903), por um francês chamado Gustave Desiré Liebau, mas somente cerca de 50 anos depois começou a ser fabricado junto com os veículos? E mais. Sabia que aqui no Brasil ele (o cinto) só se tornou obrigatório por meio da Lei 9.503 de 1997?
Pois é. Hoje ninguém mais questiona se deve usar ou não o tal do cinto de segurança, não é mesmo? Até porque, abundam pesquisas e campanhas de conscientização sobre a sua eficácia e importância. Neste sentido, eu te pergunto: quanto tempo mais teremos que “chegar com jeitinho” e contemporizar com os homens, sobretudo os líderes das empresas – mas não só eles – sobre os dados compartilhados aqui?
Ouço constantemente, sobretudo de muitas mulheres, que: “Ah, Lincoln, mas se você falar dessa maneira vai afastar os homens dessas pautas”. Olha, gente, se continuarmos pensando assim, e aqui não quero invalidar a importância do conceito de “criar pontes” e até mesmo de ferramentas como a da CNV (Comunicação Não-Violenta), nada mudará e não chegaremos a lugar nenhum!
E para finalizar, mais uma vez cito as reflexões da incomparável bell hooks em seu livro “O feminismo é para todo mundo – práticas arrebatadoras”, que nos coloca para refletir sobre o que precede o patriarcado (e o próprio machismo), que nada mais é do que o sexismo. Ou seja, a ideia de “papéis de gênero”:
“(…) Muitas vezes, no início do feminismo contemporâneo, formaram-se grupos de homens sem abordar, de maneira alguma, questões relacionadas a sexismo e dominação masculina. Assim, como o feminismo baseado em estilo de vida era focado em mulheres, esses grupos com frequência se tornavam ambiente de terapia para homens lidarem com suas feridas, sem haver crítica ao patriarcado ou plataforma de resistência à dominação masculina. (…) Um homem despojado de privilégios masculinos, que aderiu às políticas feministas, é um companheiro valioso de luta, e de maneira alguma é ameaça ao feminismo; enquanto uma mulher que se mantem apegada ao pensamento e comportamento sexistas, infiltrando o movimento feminista, é uma perigosa ameaça”.
Avancemos!
Abraços Inclusivos!
Lincoln TavaresSignatário do Movimento de Solidariedade pela Igualdade de Gênero – He For She – da ONU Mulheres, membro do Coletivo Paternando, do Fórum Paulistano de Masculinidades, da Rede Brasileira de Masculinidades e colaborador do Grupo Mulheres do Brasil – Barueri/SP. Membro da ONG BSGI (Brasil Soka Gakkai Internacional), uma instituição filiada à ONU que atua pela paz, cultura e educação.
Texto Públicado em 06/09/2023.
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