Muitas empresas ainda são fiéis em promover a manutenção do que eu chamarei de “Líder Dom Quixote”, figura inspirada no personagem do grande escritor espanhol Miguel de Cervantes e considerado o primeiro romance moderno. Quem nunca ouviu ou repetiu, ao presenciar alguém muito idealista, impositivo, sonhador ou até mesmo “viajandão” que essa pessoa tem um comportamento quixotesco? Pois é. Essa expressão também carrega muito do machismo e do patriarcado arraigado em nossa sociedade.
Dom Quixote, ou “Fidalgo de la Mancha”, considerava-se um cavaleiro destemido que percorria o mundo lutando com gigantes e feras mitológicas. Inebriado pelas inúmeras histórias que leu, já não conseguia mais distinguir o que era fantasia do que era realidade. Ou então, para usar uma linguagem mais acadêmica, não sabia distinguir a realidade subjetiva (interna) da realidade objetiva (externa). Seu fiel escudeiro, Sancho Pança tenta alertá-lo sobre seus delírios, mas, sem sucesso, desiste (ainda assim permanece a seu lado).
É com essa visão, emprestada da analogia feita pelo brilhante escritor e PhD, Jordan Shapiro em seu livro “Como ser um pai feminista”, que chegamos ao Líder Dom Quixote. Ou, como o próprio autor diz: “É a descrição perfeita da autoridade patriarcal narcisista”. Sim! O líder Dom Quixote é aquele cara apaixonado pelas próprias ideias e que faz todo mundo segui-lo. É extremamente narcisista, tóxico e patriarcal. Na hierarquia social, a palavra dele é a última. Ele é a autoridade. Neste sentido, tudo que não se assemelha com o patriarca é lido como inferior. E quais são as outras características dessa figura? Ele é homem, branco, heterossexual, cisgênero e não tem nenhum tipo de deficiência.
Alguma semelhança com a maioria maciça das lideranças nas empresas? Sim! Segundo estudo realizado pela consultoria Grant Thornton, mulheres ocupam apenas 39% das posições de liderança nas empresas. O levantamento foi realizado com 250 empresas e apontou também que o Brasil está atrás de África do Sul (42%), Turquia e Malásia (40%) e Filipinas (39%), mas tem um resultado melhor do que a média da América Latina (35%), por exemplo. Mas se não pudesse ficar pior, 6% das empresas afirmaram não manter mulheres em cargos de liderança.
Voltando ao Líder Dom Quixote, como vimos acima, tenho três bons exemplos que ilustram essa autoridade patriarcal narcisista da qual se refere Shapiro: Steve Jobs, Walt Disney e Elon Musk. Celebrados e exaltados por muitos, esse tipo de figura é aquele que, tal qual Dom Quixote, idealiza um tipo de propósito visionário e faz com que todos ao seu redor o sigam. São arrogantes, mas não admitem. São dogmáticos e não aceitam nada que fuja do seu controle. Manipulam, mas ao mesmo tempo colocam-se como pessoas compreensíveis e familiares, como pais e irmãos mais velhos.
O problema é que, aos olhos deste líder, todas e todos são Sansho Pança. Devem segui-lo e comprar a ideia do seu propósito. O Líder Dom Quixote oscila entre a figura generosa e explosiva. Isso me lembra uma outra obra, “Inclusifique – Como a inclusão e a diversidade podem trazer mais inovação à sua empresa”, da escritora e best-seller Stefanie K. Johnson, que fala da imagem do “Cavaleiro Branco”, que também nos diz muito sobre o Líder Dom Quixote:
“Comportamentos que associamos a cavalheirismo e que o homem aprende desde cedo – coisas como abrir a porta para a mulher, carregar sua bolsa e tratá-la de um modo diferente do homem (e melhor até) – em geral são transmitidos às crianças pelos pais. Se você vê sentido nesses ideais e os leva para o trabalho, o efeito pode ser convertê-lo em um Cavaleiro Branco (…)”.
“(…) A loucura do Cavaleiro Branco não está em apoiar mulheres, pessoas não brancas, mulheres não brancas ou LGBTQ: todo inclusificador que conheci também apoiava e defendia esses grupos minoritários. O problema é que a conduta do Cavaleiro Branco pode, involuntariamente, passar a mensagem de que esses indivíduos são incompetentes e, de quebra, alienar outros homens na organização. (…)”.
Essa é a ideia do homem heterocisnormativo, símbolo do patriarcado organizacional, e lido pelas mulheres e grupos minorizados como padrão e referência. Nessa lógica patriarcal, a promoção da inclusão das diversidades no ambiente corporativo fica condicionada a essa hierarquia social (citada anteriormente). Ao “homem padrão” é oferecido o topo da pirâmide. Porém, enquanto as diversidades continuarem sendo vistas como “os outros”, sem alteridade, não avançaremos.
Abraços Inclusivos!
Lincoln Tavares de Melo
Signatário do Movimento de Solidariedade pela Igualdade de Gênero – He For She – da ONU Mulheres, membro do Coletivo Paternando, do Fórum Paulistano de Masculinidades, da Rede Brasileira de Masculinidades e colaborador do Grupo Mulheres do Brasil – Barueri/SP. Membro da ONG BSGI (Brasil Soka Gakkai Internacional), uma instituição filiada à ONU que atua pela paz, cultura e educação.
Públicado no LinkedIn em 02/05/2022.
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