Encontro Internacional Cidades do Cuidado propõe discutir a organização da vida urbana. Em Cabreúva, o Instituto Homens Que Cuidam desenvolve um Observatório para investigar como os homens participam dessas responsabilidades.

Quem leva uma criança à escola, acompanha uma pessoa idosa à consulta e reorganiza o dia quando alguém da família adoece? Quem consegue faltar ao trabalho para cuidar? E quanto tempo uma pessoa precisa atravessar a cidade para encontrar os serviços de que depende?

Essas perguntas revelam uma dimensão do cuidado que costuma permanecer pouco visível: sua relação com a organização das cidades. A localização de uma unidade de saúde, o horário de uma creche, a acessibilidade de uma calçada e as condições do transporte interferem diretamente na vida de quem cuida e de quem precisa de cuidado.

É nesse campo de reflexão que se insere o Encontro Internacional Cidades do Cuidado, previsto para os dias 25, 26 e 27 de novembro de 2026, em formato híbrido, com atividades presenciais na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e transmissão online. Com o tema “Urbanismo e Cidades do Cuidado: Éticas, Políticas e Práticas para Viver Juntos”, o evento propõe aproximar pesquisas, políticas públicas e experiências comunitárias. A participação é gratuita.

Para o Instituto Homens Que Cuidam, essa discussão encontra uma pergunta decisiva: onde estão os homens na sustentação cotidiana da vida?

O cuidado precisa ser compartilhado

Historicamente, as mulheres assumem grande parte das tarefas domésticas, da atenção às crianças e do acompanhamento de familiares. Além da execução dessas atividades, recai sobre elas o trabalho de lembrar, antecipar necessidades, marcar consultas e organizar a rotina.

Essa distribuição precisa ser considerada quando pensamos uma cidade que cuida. Ampliar serviços e melhorar o acesso são medidas fundamentais. Também é necessário transformar as relações que fazem do cuidado uma obrigação feminina e da participação masculina uma contribuição eventual.

Os homens precisam assumir responsabilidades concretas: conhecer a rotina dos filhos, acompanhar a saúde da família, dividir o trabalho doméstico e participar das decisões que sustentam o cotidiano. Ao mesmo tempo, serviços, empresas e políticas públicas precisam criar condições para que essa participação aconteça.

Uma cidade expressa suas prioridades também pelo tempo que permite às pessoas dedicar ao cuidado.

Cabreúva como território de investigação

É a partir dessa perspectiva que o Instituto Homens Que Cuidam desenvolve o Observatório Territorial da Cultura do Cuidado, com Cabreúva, no interior paulista, como território piloto.

A proposta está apresentada no trabalho “Onde estão os homens na cidade do cuidado? O Observatório Territorial da Cultura do Cuidado em Cabreúva/SP”, elaborado para a modalidade de comunicação oral, no eixo dedicado à governança, à democracia e à distribuição das responsabilidades de cuidado.

Em fase de implantação, o Observatório busca compreender como o cuidado se organiza no município, onde estão as desigualdades e quais barreiras dificultam o acesso a direitos. Para isso, articula dados públicos e administrativos, escutas com profissionais e moradores e a leitura dos equipamentos, horários e trajetos que fazem parte da vida cotidiana.

A investigação aproxima temas frequentemente tratados de maneira separada: saúde, paternidades, assistência social, educação, trabalho, mobilidade e prevenção das violências. Na experiência das famílias, essas necessidades se cruzam todos os dias.

Do pré-natal às rotas do cuidado

As interlocuções iniciais com a Atenção Básica e a Assistência Social de Cabreúva vêm ajudando a identificar questões para aprofundamento.

Uma delas envolve o Pré-Natal do Parceiro. Incentivar os homens a acompanhar a gestação exige observar também as condições de trabalho, o acolhimento nos serviços e o reconhecimento institucional desse tempo dedicado ao cuidado. Estar em uma consulta pode abrir caminhos para uma paternidade mais presente, mas a corresponsabilidade precisa continuar depois dela, na rotina familiar.

Outra frente é compreender as chamadas Rotas do Cuidado: os deslocamentos entre casa, escola, unidade de saúde, assistência social e outros serviços. Quem realiza esses percursos? Quanto tempo leva? Quais custos enfrenta? É possível conciliar os horários dos atendimentos com o trabalho remunerado?

O Observatório prevê reunir essas informações em mapas, análises e recomendações que possam apoiar a gestão pública, os serviços e a comunidade. As primeiras interlocuções são pontos de partida para a investigação; ainda não constituem um diagnóstico da população de Cabreúva.

Aprender com outras cidades, construir respostas locais

O projeto dialoga com experiências como as Manzanas del Cuidado, de Bogotá, que aproximam serviços e buscam enfrentar a sobrecarga das mulheres. Esse diálogo ajuda a formular perguntas sobre proximidade, acesso e distribuição de responsabilidades.

Cabreúva, porém, precisa construir respostas a partir de suas próprias condições: a distribuição dos bairros, os recursos disponíveis, as redes comunitárias e as experiências de quem utiliza os serviços.

Conhecer o território e escutar as pessoas são etapas essenciais para que o cuidado se traduza em decisões públicas consistentes.

Os homens também precisam construir essa cidade

A contribuição que o Instituto Homens Que Cuidam busca oferecer a esse debate parte de uma convicção: transformar a relação dos homens com o cuidado exige mudanças nas práticas pessoais e nas condições que organizam a vida coletiva.

Isso envolve responsabilização pelas violências, participação na vida familiar, compromisso com a equidade de gênero e presença nos espaços em que as políticas são construídas. Envolve, ainda, reconhecer que os homens precisam aprender a cuidar de si, procurar apoio e construir vínculos.

O Encontro Internacional Cidades do Cuidado abre espaço para aproximar essas questões do planejamento urbano e das políticas públicas. A experiência em construção em Cabreúva procura contribuir com esse diálogo, investigando como a corresponsabilidade pode ganhar forma no território.

Uma cidade que cuida precisa de homens que assumam, todos os dias, a responsabilidade de cuidar.

Mais informações sobre o encontro e inscrições: página oficial do evento.


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