Estamos dilacerados.
Laís, de 5 anos, e Isis, de 3, foram mortas pelo próprio genitor, na zona sul de São Paulo. Segundo os registros policiais, ele já havia ameaçado a ex-companheira e confessou ter assassinado as meninas. A investigação aponta que o crime teria sido cometido para puni-la pelo fim do relacionamento.
Poucos dias antes, o Brasil conheceu a história de Gustavo, também de 3 anos. Chorando, ele dizia que não queria ir para a casa do pai porque apanhava. Ainda assim, a convivência foi mantida. O menino foi encontrado morto, com sinais de violência, e o genitor e sua atual companheira são investigados pelo crime.
Quantas crianças ainda precisarão morrer para que suas palavras, seus medos e seus corpos sejam levados a sério?
Uma criança que diz “ele me bate” não está produzindo uma prova contra alguém. Está fazendo um pedido de proteção.
Nenhuma convivência familiar pode estar acima da vida. Nenhuma acusação de “alienação parental” pode ser utilizada para desacreditar automaticamente uma mãe que denuncia ou uma criança que manifesta medo. Nenhuma ameaça contra uma mulher pode ser tratada como simples conflito entre adultos.
bell hooks nos ensina que amor não é apenas aquilo que alguém diz sentir. Amor é uma prática construída com cuidado, respeito, responsabilidade, compromisso, confiança e reconhecimento. Onde existe violência, controle, medo e destruição, não existe amor.
Não se agride “por amor”. Não se ameaça “por amor”. Não se mata “por amar demais”.
Heleieth Saffioti também nos ajuda a compreender que a violência não pode ser tratada como um ato isolado ou uma simples “perda de controle”. Ela nasce e se sustenta em relações desiguais de poder, nas quais alguns homens acreditam ter o direito de controlar a vida, o corpo e as decisões das mulheres.
Quando uma mulher rompe uma relação, reconstrói a própria vida ou deixa de se submeter, esse poder é confrontado. E, em sua expressão mais brutal, a violência tenta restabelecer o domínio pelo medo, pela punição e pela destruição.
Matar crianças para atingir uma ex-companheira é uma das manifestações mais cruéis dessa lógica. É transformar filhas e filhos em instrumentos de vingança. É agir como se aquelas vidas fossem propriedades disponíveis para ferir uma mulher.
Isso não surge do nada. Cresce em uma cultura que ensina alguns homens a confundirem amor com posse, autoridade com domínio, paternidade com direito e separação com humilhação. Por isso, responsabilizar os autores é indispensável, mas não é suficiente!
Precisamos enfrentar a cultura que forma homens para o controle e para a violência. Precisamos de instituições capazes de reconhecer os momentos de ruptura como situações de risco. Precisamos acolher as denúncias das mulheres e garantir uma escuta verdadeiramente protegida às crianças.
Escutar uma criança é uma responsabilidade. Acreditar em seu medo é o início da proteção. Investigar é obrigação. Proteger deve ser prioridade.
A Homens Que Cuidam afirma com toda a força:
DNA não transforma um homem em pai. Paternidade não é posse. Criança não é, e não pode ser, instrumento de vingança. A palavra da criança precisa ser acolhida e investigada. A proteção deve vir antes da convivência.
Não existe paternidade sem cuidado. Não existe amor onde há violência. Não existe direito de convivência acima do direito à vida.
Por Laís. Por Isis. Por Gustavo. Por todas as crianças e mulheres que pediram ajuda e não foram protegidas. Isso precisa acabar!
Homens Que Cuidam Afeto • Cuidado • Revolução
Ao perceber ou suspeitar de violência contra crianças e adolescentes, procure o Conselho Tutelar, acione a Polícia Militar pelo 190 ou denuncie pelo Disque 100, gratuitamente, 24 horas por dia.
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