Uma das coisas de que mais gosto no meu trabalho é que ele me permite “conversar” com pessoas que nunca conheci. Ou, pelo menos, imaginar essas conversas.

Sempre que mergulho na obra de uma autora ou autor para preparar uma palestra, um seminário ou uma formação, passo dias lendo, sublinhando livros, fazendo anotações, conectando ideias. Em algum momento, quase sem perceber, deixo de estar apenas estudando. Começo, de fato, a conversar com essas pessoas.

Fico imaginando como seria sentar para um café com elas. Quais perguntas eu faria? Que perguntas elas fariam para mim? É um exercício de imaginação, claro. Uma das maravilhas de estudar é, antes de tudo, aceitar que alguém já percorreu um caminho antes de nós (na grande maioria das vezes com muito mais genialidade e competência).

Essa semana terei a alegria de facilitar um primeiro seminário para um novo cliente sobre masculinidades, equidade de gênero e cultura do cuidado. Entre as autoras que mais têm me acompanhado nessa preparação está Heleieth Saffioti, uma das maiores sociólogas brasileiras e referência para compreender como a violência contra as mulheres é produzida socialmente.

Foi então que imaginei esse café. Acho que eu chegaria muito ansioso e envergonhado, mas determinado a fazer muitas perguntas. Afinal, em pleno Agosto Lilás, todos repetimos que precisamos combater a violência contra as mulheres. Mas poucas vezes paramos para fazer uma pergunta anterior. Como essa violência é produzida? Ela aparece do vazio? Ela nasce, de repente, no momento em que um homem agride uma mulher?

Saffioti, imagino, me olharia com a serenidade de quem passou décadas estudando exatamente isso. Talvez ela respondesse:

— Lincoln, meu filho, a violência nunca chega sozinha. Ela sempre encontra uma estrada pavimentada antes.

E, de repente, tudo faria sentido:

– A piada machista.

– O controle disfarçado de cuidado.

– O ciúme tratado como prova de amor.

– A interrupção constante da fala de uma mulher.

– A divisão desigual do trabalho doméstico.

– A ideia de que o homem “ajuda” em casa, em vez de reconhecer que a casa também é sua responsabilidade.

Nada disso é a violência em sua forma mais extrema. Mas tudo isso prepara o terreno para que ela aconteça. Então eu lhe faria outra pergunta.

— Mas por que alguns homens recorrem justamente à violência quando uma relação termina?

Ela provavelmente não falaria apenas sobre homens. Falaria sobre poder. E essa talvez seja uma das reflexões mais importantes que sua obra nos oferece. Quem ocupa uma posição de poder não precisa recorrer continuamente à violência. A violência costuma aparecer quando esse poder começa a ser contestado:

– Quando a mulher decide ir embora.

– Quando denuncia.

– Quando conquista autonomia financeira.

– Quando simplesmente diz “não”.

– Quando deixa de obedecer ao roteiro que um homem acha “natural”.

É nesse momento que alguns homens confundem perda de controle com perda de identidade, tentando recuperar, pela força, uma autoridade que nunca deveria ter existido. Foi então que percebi que essa conversa não era “apenas” sobre violência. Era sobre masculinidades. Porque nenhum menino nasce acreditando que uma mulher lhe pertence.

Ele aprende observando, ouvindo e sendo premiado por determinados comportamentos e ridicularizado por outros. Aprende, muitas vezes, sem que ninguém precise dizer uma única palavra. Talvez seja justamente por isso que transformar masculinidades seja uma estratégia tão poderosa de prevenção.

Não esperamos a violência acontecer para então combatê-la. Começamos muito antes. Quando ensinamos que cuidado não tem gênero. Que respeito não diminui ninguém. Que afeto não ameaça as nossas masculinidades. Que autoridade não é sinônimo de amor. Que poder não precisa existir dentro de uma relação.

No fim desse café imaginário, antes de ir embora, eu apenas agradeceria.

Muito obrigado, professora Heleieth!

Obrigado por me ajudar a compreender que combater a violência contra as mulheres exige muito mais do que punir agressores. Exige coragem para questionar a cultura que produz essa violência todos os dias. Principalmente, coragem para convidar os homens a reescreverem o roteiro que aprenderam. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do Agosto Lilás.


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